A jabuticaba que interessa

O Brasil tem muitas jabuticabas, além da fruta propriamente dita, exclusividades nossas. Conheci mais uma nesta semana ao participar do seminário promovido pelo Instituto Alfa e Beto, do professor João Batista Oliveira. Descobri que somos o único país no mundo a insistir no chamado modelo construtivista de alfabetização infantil. Segundo a ideia, lançada em meados da década de 70, a criança aprende a ler lendo, ou seja, aprender a ler seria tão natural quanto aprender a andar. Estudos científicos, no entanto, comprovaram pouco tempo depois que não é nada disso. Aprender a ler é um ato cultural, não um ato natural. O alfabeto é um conjunto genial de códigos composto por 26 letras (no caso do brasileiro), capazes de, em combinação, formar todos os sons. O cérebro precisa aprender a codificar e descodificar e isso requer método e disciplina.

O mundo inteiro tomou conhecimento da descoberta científica e abandonou o modelo que parecia progressista e inovador. Menos o Brasil. E estamos falando do Ministério da Educação, de escolas públicas e particulares. O resultado pode ser avaliado pelo desempenho nacional desastroso no Pisa, um programa internacional de avaliação de estudantes, aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 65 países, nas áreas de leitura, matemática e ciências. Na última rodada, de 2012, em leitura, ficamos 86 pontos abaixo da média dos países da OCDE, em 55º lugar. Metade dos alunos brasileiros não é capaz de deduzir informações do texto, de estabelecer relações entre diferentes partes do texto e não consegue compreender nuances da linguagem. Empacam na interpretação do que leem.

Estamos insistindo nesse descaminho desde os anos 90, apesar da ciência e dos indicadores. Some-se a isso a baixa eficiência da escola pública e é fácil chegar a algumas conclusões. Como diz João Batista Oliveira, além de comprometer o futuro do país, a falta de eficiência da escola pública, principalmente, acaba por manter o que deveria transformar: a desigualdade. É, profundamente, antidemocrática. Como a educação é a única porta de passagem para a ascensão social, a baixa qualidade dos nossos grupos escolares mostra que, no Brasil, ela é portinhola, fresta ou funil. A democracia faz discurso, garante as liberdades, mas na hora das escolhas age como plutocracia. Continuamos sendo um país governado pelos ricos para os ricos. A política pública da educação é prova disso.

Paira no ar a pergunta: por que não mudamos para oferecer aos brasileiros ensino de qualidade, independente da origem social do aluno? A resposta, diz Oliveira, é simples: porque, considerando-se bem servida pela escola particular, as classes média e alta se dão por satisfeitas. A sociedade não pressiona e, na ausência da exigência, os governos pouco fazem porque estão preocupados em investir onde estão sendo cobrados para não perderem a eleição seguinte.

É assim que o sistema político funciona e este não é seu defeito, mas sua maior qualidade. A responsabilidade, ainda bem, é nossa, não apenas do governante. Precisamos antes responder à pergunta: que país queremos? Sem esta resposta da sociedade – que é uma questão de amadurecimento e, portanto, de tempo – continuaremos jogando a culpa no governo, no Congresso, na escola ruim, no transporte público vergonhoso, no SUS e outros gargalos. Desconhecendo que o voto está na origem de tudo. Já avançamos muito, mas estas questões – a qualidade dos serviços públicos em geral e da educação em particular – são os nossos desafios do momento. Em junho de 2013, de forma espetacular, a multidão nas ruas começou a responder. Indício de que das jabuticabas ficaremos apenas com a fruta.

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