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Blog Alfa e Beto

Entrevista: Augusto Buchweitz

1Pós-doutorado em Neurociência, professor de Linguística e pesquisador do Instituto do Cérebro (InsCer) do Rio Grande do Sul, Augusto Buchweitz tem como um dos seus maiores desafios conectar a produção científica com o “mundo real” da educação.

Um dos fundadores da Rede Nacional de Ciência para a Educação, grupo que reúne cientistas e pesquisadores comprometidos em fazer chegar às políticas públicas educacionais o conhecimento científico, Augusto reconhece que este é um trabalho árduo. “Nos países desenvolvidos, as políticas são de fato políticas de Estado, que seguem relatórios de núcleos científicos. No Brasil, são políticas partidárias, ideológicas, sem nenhum fundamento em evidências”, disse o especialista.

Na entrevista a seguir, Augusto fala sobre o avanço da Neurociência no Brasil, as dificuldades em se estabelecer políticas voltadas para a Primeira Infância e sobre o recém-lançado Desenvolvimento infantil: o que desenvolve?, livro de autoria do presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira, que conta com uma apresentação do pesquisador gaúcho.

Confira os principais trechos da conversa:

1. O senhor fez uma resenha elogiosa ao livro Desenvolvimento Infantil: o que desenvolve?, de autoria de João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto. No texto, o senhor diz que o livro é um bom exemplo de como fazer ciência. O que o senhor quis dizer com isso?

O livro é um ótimo exemplo de como usar a ciência para entender o desenvolvimento infantil. O que o livro faz é apresentar as evidências mais recentes sobre diversos aspectos do desenvolvimento infantil – desde questões sobre o desenvolvimento físico, emocional, até questões mais objetivas. E o autor analisa tudo isso sob a ótica da ciência. Ele não traz verdades, mas evidências. Nada ali é apresentado sem resultado – tudo são evidências atuais.

2. O que mais chamou a sua atenção no livro, comparando-o com outras obras sobre o tema?

Acredito que este trabalho do Prof. João Batista Oliveira preencha uma lacuna. Trata-se de um livro escrito em uma linguagem acessível a todos os profissionais que atuam na área de desenvolvimento infantil. Um professor da área da Saúde, um profissional da Educação, um graduando, um pesquisador… todos eles podem utilizar o livro para se informar, para se atualizar sobre as últimas evidências. Este é, sem dúvida, o maior diferencial. Mas eu também gostaria de ressaltar que se trata de um livro completo, que contempla desde a vida intrauterina, passando pelos primeiros passos e contemplando todo o caminho da Primeira Infância. Esta também é uma característica bastante particular da obra.

3. O senhor é especialista em Linguística e Neurociência. Como essas ciências têm contribuído para o entendimento do desenvolvimento infantil?

Essas ciências se ocupam de questões sobre a funcionalidade do cérebro. Elas evoluíram muito nos últimos anos com o avanço de técnicas não invasivas [como ressonância magnética e eletroencefalograma]. Isso nos permitiu analisar funcional e anatomicamente o cérebro humano sem ter que esperar alguém morrer para fazer isso. São ciências que vêm contribuindo muito para o entendimento do desenvolvimento infantil. A propósito, o livro citado apresenta as evidências mais atuais nesse campo.

4. Como o senhor enxerga as políticas públicas para a Primeira Infância hoje no Brasil?

Em geral, não são políticas de Estado ou de governo. Diferentemente da Alemanha, dos Estados Unidos, do Canadá ou da Austrália, o Brasil tem uma imensa dificuldade em estabelecer políticas duradouras, que permaneçam apesar da troca de partidos. Nos países desenvolvidos, as políticas são de fato políticas de Estado, que seguem relatórios de núcleos científicos. No Brasil, são políticas partidárias, ideológicas, sem nenhum fundamento em evidências. São decisões arbitrárias que não estão baseadas na Neurociência, na Economia, na Estatística. Nada disso é levado em conta. E, obviamente, as políticas aqui não funcionam porque mudam a cada quatro anos. E, assim, a gente não consegue sair deste estado de subdesenvolvimento em que nos encontramos. A única coisa que é permanente no Brasil é a prática de decisões erráticas.

5. O Instituto do Cérebro é um importante centro de produção de conhecimento. Você ou membros do InsCer foram consultados durante a construção da Base Nacional Curricular Comum – BNCC?

Não fomos consultados e tampouco conheço um cientista que o tenha. Não conheço todos os cientistas do Brasil, mas dos que conheço, nenhum foi incluído nesse processo. Isso sempre foi assim. No Brasil, a educação é voltada para grupos ideológicos e eles sempre se mantêm, independente do governo. Isso é assim desde os anos 80 e infelizmente é uma constante. Não que o Ministério da Educação tenha que ser tomado por cientistas, mas eles certamente precisam fazer parte do processo.

As neurociências evoluíram muito nos últimos anos no Brasil. Claro que não competimos com países mais avançados, mas já há evolução científica suficiente para que houvesse participação em processos como a construção da BNCC. A comunidade científica tem uma parcela de culpa, porque, em geral, não sabe conversar com a sociedade, não sabe levar o resultado para a sala de aula. Mas quando leva, não é acolhida. Em 2003, o Relatório Alfabetização Infantil – Novos Parâmetros, elaborado por alguns dos mais importantes especialistas em alfabetização do mundo, foi entregue à Câmara dos Deputados. E nunca foi utilizado… A questão da educação é vista de forma simplória: basta colocar mais dinheiro. Ninguém pergunta se isso, de fato, funciona.

6. Qual a sua opinião sobre o documento?

A Base tem definições que não fazem sentido. A definição de letramento, por exemplo, não tem pé nem cabeça, não dá para entender. Não é um documento baseado em evidências.

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