As razões do sucesso da melhor rede municipal de ensino fundamental do Brasil

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“Lembrem-se de respeitar o colega e o meio ambiente. Tenham uma boa aula.” Assim termina a reunião diária da diretora Maria Cristina Prado com os cerca de 600 alunos com idades entre 6 e 11 anos da Escola Municipal Hebe de Almeida Leite Cardoso, na cidade de Novo Horizonte, a cerca de 400 quilômetros de São Paulo. Pouco antes do encerramento, a diretora repetiu algumas das regras da unidade: celular, chiclete e uniforme curto são proibidos. Pisar na grama na hora do intervalo, também. O discurso é a parte mais ilustrativa do dia a dia das cinco escolas do município, que se destaca no panorama brasileiro por oferecer um ensino de qualidade a todos os seus alunos. Por trás dos bons resultados, não há ingredientes milagrosos, caros ou irreproduzíveis. Ao contrário. A matéria-prima para o bom desempenho é o comprometimento de gestores, professores e pais com a educação, além da continuidade de políticas públicas eficazes.

A primeira lição vem do prefeito da cidade, Toshio Toyota (PPS): onde entra a educação, sai a política. “Quando comecei a procurar um secretário de Educação eficiente, tinha em mente que ele não deveria estar ligado a nenhum grupo político”, diz Toyota, que depois de dois mandatos consecutivos (2001-2008) está de volta à prefeitura de Novo Horizonte desde janeiro. “Optei por alguém que fosse ao mesmo tempo empreendedor, revolucionário e comprometido com resultados.” A escolha recaiu sobre Paulo Magri, um professor de matemática que dirigia uma escola estadual em Itajobi, cidade vizinha a Novo Horizonte. O método do prefeito, que trouxe resultados, não é prática comum no Brasil. De acordo com uma pesquisa recente realizada pela Fundação Victor Civita, 42% dos diretores de escolas das redes estaduais são escolhidos por indicação política.

Empossado no cargo, o secretário Magri estabeleceu imediatamente um objetivo: criar não uma escola-modelo, unidade que se destaca das demais pela qualidade do ensino oferecido, mas toda uma rede eficiente. “A boa rede é aquela em que os alunos aprendem”, diz Magri, de 50 anos, 12 deles vividos à frente da educação no município. “De nada adianta ter centenas de projetos e convênios se os resultados apresentados forem pífios. Aqui, me concentro no essencial.”

O primeiro passo da administração foi estabelecer um currículo unificado para toda a rede de Novo Horizonte, tarefa que contou com auxílio de uma empresa privada de sistema de ensino. Segundo especialistas, a grade curricular unificada preenche a lacuna deixada pela ausência de uma diretriz nacional de educação — ou seja, hoje, o país não possui um documento que oriente os gestores escolares, mostrando o que os estudantes devem aprender. Como consequência, cada rede é responsável pelo estabelecimento de seu currículo. Muitas se perdem na tarefa.

Lançadas as metas, o aprendizado passou a ser fiscalizado. “Todo mundo aqui é cobrado: nosso trabalho precisa ter qualidade”, conta a professora de matemática Adriana Zalunqui, de 32 anos. “Hoje, sinto prazer em lecionar porque vejo que meus alunos estão aprendendo.” A avaliação de alunos e professores será tema de reportagens da série que serão publicadas, respectivamente, na terça e quarta-feira.

Simultaneamente, houve também um esforço para aprimorar a infraestrutura das escolas da rede. Com a municipalização do ensino fundamental, promovida em 2005, cinco instituições antes dirigidas pelo estado passaram a ser de responsabilidade da prefeitura. Grades foram removidas, paredes pintadas, móveis trocados. O ambiente tornou-se mais acolhedor. “Os alunos percebem que o ambiente que frequentam foi valorizado. Então, estão se conscientizando de que precisam também dar mais valor a isso”, diz o professor de geografia Valmir Valiani, de 43 anos. Levantamento divulgado recentemente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que infraestrutura escolar é uma preocupação nacional: 46,2% dos secretários disseram que a situação de prédios e aparelhos escolares são hoje prioridade de gestão.

A participação familiar é outro pilar do esforço de Novo Horizonte de criar sua rede-modelo. Os pais são incentivados a participar da formação dos filhos e cobrados quando algo não vai bem. Ricardo Rapini, de 37 anos, tem três filhos que estudam na rede municipal. No ano passado, teve de comparecer à escola porque uma das crianças, Rian, de 10 anos, que cursava o 4º ano, apresentava mau comportamento. “O seu Paulo (Magri, secretário de Educação) pega no pé dos diretores, que pegam no pé dos professores, que pegam no pé dos pais”, diz Rapini. A razão da convocação pode parecer banal — o pequeno Rian estava correndo no pátio da escola durante o intervalo —, mas a iniciativa de chamar os pais deixa clara a orientação pedagógica. “Somos informados de tudo o que acontece lá dentro”, diz Rapini. Investir na participação da família na escola é, segundo os estudiosos do assunto, uma das políticas públicas mais eficazes que existem. “Com ou sem escolaridade, os pais devem acompanhar de perto as atividades das crianças, cooperando com a evolução delas”, diz Patrícia Guedes, especialista em gestão educacional da Fundação Itaú Social.

Para atenuar as inevitáveis discrepâncias entre as escolas, os melhores profissionais — professores e diretores — são destacados para atuar nas unidades que ostentam os piores desempenhos. Seguindo essa política, cerca de 20% dos 189 docentes foram remanejados no início de 2013. Maria Cristina, diretora da escola Hebe de Almeida Leite Cardoso, por exemplo, assumiu a unidade neste ano a pedido do secretário de Educação. “A diretora anterior é uma boa profissional, mas estava acomodada e precisava se reciclar”, diz Magri.

É inegável que parte do sucesso de Novo Horizonte é facilitada pelo fato de a cidade ser relativamente pequena, com uma rede modesta de alunos. São 3.500 estudantes do 1º a 9º ano. Isso permite ao secretário acompanhar de perto a evolução de estudantes, professores e unidades, além de fiscalizar o trabalho dos diretores e de manter contato constante com os pais. Mas isso não deve tirar o mérito da administração. “Não importa o tamanho do desafio. A lição que a rede municipal deixa e que deve ser copiada é que devemos unir gestores e professores para trabalhar pela aprendizagem de todo e qualquer aluno. A escola deve se preocupar com o sucesso de todos e não ser uma máquina para escolher os melhores”, afirma Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP, especialista em gestão educacional.

Há também outra razão para levar a sério o exemplo da cidade paulista de 38.000 habitantes. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 89% dos 5.565 municípios do país têm até 50.000 habitantes — ou seja, pouco mais do que Novo Horizonte. Isso significa que, ainda que fosse impossível repetir a fórmula novo-horizontina em metrópoles, nove em cada dez cidades brasileiras poderiam fazê-lo. “O que aprendemos ao ver exemplos como esse é que cada secretaria de educação precisa identificar suas potencialidades. Se a cidade é pequena, precisa tirar proveito disso, como faz a gestão de Novo Horizonte. Redes grandes possuem outros trunfos, como verbas maiores e mais recursos humanos”, diz Priscila Cruz, diretora-executiva da ONG Todos Pela Educação. “De qualquer forma, o básico pode e deve ser feito por todos os municípios.”