Reprovar alunos faz bem?

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Nota do Instituto Alfa e Beto:
Este artigo foi publicado originalmente no site Brasil Post

O Brasil é campeão mundial em reprovar alunos. É um dos poucos países do mundo que adota a reprovação em massa como parte integrante de sua política educacional. No ano de 2013, numa capital do país com índices de reprovação superiores a 20% nas séries iniciais, os professores foram agraciados com um 14º salário.

O que sabemos sobre reprovação?

Primeiro, sabemos que é uma prática comum, a maioria dos países prevê essa possibilidade.

Segundo, há uma grande diferença entre reprovação eventual e reprovação em massa. Na maioria dos países, a reprovação é residual, raramente um aluno é reprovado mais de uma vez ao longo de sua trajetória escolar. Reprovação é um acidente de percurso na vida do aluno, não uma fatalidade.

Terceiro, há muitos estudos sobre o tema, em países mais e menos avançados. A maior parte dos estudos não é favorável à reprovação. Em alguns casos há justificativas – por exemplo, aluno que teve problemas pessoais ou familiares graves em um determinado ano. E em outros, a reprovação é uma espécie de alerta ou medida preventiva para alunos que saíram do trilho. O único argumento sólido sobre o tema foi apresentado por E.D. Hirsch Jr. e tem a ver com o funcionamento da classe: se um aluno não possui um nível adequado de conhecimentos dos conteúdos do ano anterior, ele fica privado de aproveitar do que lhes é ensinado na série seguinte. E acaba perturbando o funcionamento do todo. Isso, claro, onde há um currículo bem feito – e talvez se aplique aos alunos das boas escolas particulares também no Brasil. Em síntese: nos países onde a reprovação é rara, em geral, os efeitos sobre o desempenho posterior dos alunos não são muito grandes. Mas pode haver vantagens para os alunos e para as escolas quando a reprovação é judiciosa.

O caso do Brasil é diferente. Aqui temos reprovação em massa. Todos os dados disponíveis mostram que quanto mais atrasado o aluno, pior sua nota. Ou seja, o aluno reprovado não melhora – ele só vai piorando. Além disso, o desempenho dos alunos “precoces” é quase igual ao de alunos dois anos mais velhos.

Moral da história: reprovar não é remédio para educação de má qualidade. E se há razões para reprovar o aluno certamente não existe nenhuma razão para fazê-lo repetir a mesma coisa no ano seguinte – especialmente se o problema é de falta de base. Em todo o mundo as melhores escolas são as que se dedicam com afinco aos alunos com maior nível de dificuldade. E quem faz isso certamente não descuida dos melhores.