Só a educação salva o Brasil

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Entrevista concedida pelo presidente do Instituto Alfa e Beto a Fábio Pereira Ribeiro, do blog Brasil no Mundo, da revista Exame

O pensamento e as iniciativas do professor João Batista são de uma singularidade ímpar para uma nova transformação da Educação Brasileira. Seus estudos e práticas colaboram para um “repensar da educação brasileira”.

Brasil no Mundo: Com tantos indicadores negativos na Educação brasileira, além de muitos desmandos da política sobre a agenda educacional, o senhor acredita que ainda possamos transformar nossas escolas e a própria Educação?

João Batista: No momento atual é muito difícil esperar um salto de qualidade na educação, pois falta o ingrediente básico: a sociedade não está mobilizada para cobrar educação de qualidade. Isso inclui os estudantes, as famílias e as elites, particularmente as elites empresariais. Mesmo pagando um alto preço pela má qualidade da educação o empresariado não se mobiliza de forma adequada para pressionar o governo. O governo, em todos os níveis, só irá enfrentar os desafios de uma reforma se for obrigado a isso por uma forte pressão. Sem isso a tendência é se acomodar, pois as forças a favor da inércia e da baixa qualidade são muito poderosas.

Brasil no Mundo: O senhor lançou recentemente a obra Repensando a educação brasileira o que fazer para transformar nossas escolas, que por sinal e de forma brilhante, apresenta uma série de dados, prognósticos e análises bem fundamentadas do que realmente acontece na educação brasileira. Na sua visão, como que seria o grande salto transformador para a Educação Brasileira?

João Batista: O grande salto consiste em fazer o trivial variado: fazer a escola funcionar. Como isso não foi feito no passado, hoje está se tornando mais difícil. Primeiro porque, como sociedade, não temos um consenso a respeito do papel da escola – cada um espera uma coisa da escola e poucos esperam que a escola faça aquilo que tradicionalmente sabia fazer, que é ensinar. Segundo porque para dar um grande salto seria necessário começar pela base, com políticas robustas para a primeira infância, um ensino fundamental vigoroso, começando com a alfabetização das crianças no primeiro ano, e um ensino médio diversificado, com a maioria dos alunos matriculados em boas escolas de formação profissional. O problema é que o Brasil não tem paciência, não consegue fazer uma coisa de cada vez e não tem paciência e vocação para fazer coisas bem feitas, especialmente quando isso se destina à população mais pobre.

Brasil no Mundo: O Brasil pouco evolui nos indicadores internacionais referentes à educação, inovação e competitividade. Se avaliarmos o PISA da OCDE percebemos o quanto o Brasil patinana educação. Será que nosso Pacto pela Educação de fato é um compromisso ou está mais para um processo de marketing para inglês ver? Como o Brasil poderia de fato melhorar seus indicadores?

João Batista: Não sei a qual “Pacto pela Educação” você se refere, pois a palavra pacto comumente se refere ao processo de cooptação comandado com incrível competência pelo governo federal, com sua insuperável capacidade de controlar e mobilizar grupos de interesse poderosos – mas nem sempre comprometidos com o que é do interesse do aluno. Eu chamo a isso de rolo compressor, não de pacto. Ou então a palavra Pacto se refere ao movimento que levou à aprovação do Plano Nacional de Educação, que, ainda que venha a ser implementado, em nada contribuirá para melhorar a educação. Para melhorar os indicadores o Brasil precisa fazer o dever de casa – mas isso ainda não entrou na pauta da sociedade, e, consequentemente, do governo. O desempenho dos alunos brasileiros que se situam entre os 10% melhores no PISA reflete a dificuldade do Brasil melhorar: a média desses alunos equivale à média geral de todos os alunos dos países desenvolvidos. Ou seja: o Brasil não está preparando elites intelectuais, as classe média alta e as elites acreditam que é melhor para elas manter uma competição de baixo nível e portanto não pressionam para que a educação de todos tenha melhor qualidade. O Brasil patina porque se meteu num lamaçal de mediocridade e corporativismo, e não é fácil sair disso – sobretudo se há pressão externa.

Brasil no Mundo: O senhor toca em um ponto muito importante na sua obra sobre os Sete Pecados na Educação, o pecado que todo mundo está feliz com o que é ruim. Por que pais, e até mesmo professores, fazem um auto-engano sobre como a educação está? Por que assistimos os pais se empenharem mais em lutar por uma vaga na escola pública ou comprar os melhores produtos da lista de materiais nas escolas privadas do que efetivamente acompanhar o processo de aprendizagem de seus filhos?

João Batista: Para a maioria dos pais, especialmente dos pais cujos filhos frequentam a escola pública – seus filhos encontram uma situação educacional muito melhor do que eles próprios tiveram: a média de escolaridade da população adulta é de 6 anos – hoje é rara a criança que sai da escola antes de concluir o ensino fundamental de 9 anos. Há escolas, há vagas, há merenda, há uniforme para todos. Muitos pais – inclusive devido à sua baixa escolaridade – não conseguem enxergar que essa escola e essa educação – embora melhor do que eles tiveram – vai colocar seus filhos em situação mais difícil do que eles encontraram, pois as demandas hoje são cada vez maiores. Trata-se do que os economistas denominam de “assimetria de informação”. E os governantes e as instituições da sociedade civil não se preocupam em oferecer à população informações confiáveis e instrumentos para que possam obter educação de qualidade para os seus filhos.

Brasil no Mundo: Do ponto de vista da gestão escolar, será que educação brasileira não está carregada de pedagogiae pouco de administração? E no mesmo sentido, será que na pedagogia não falta inovação e vontade de diferenciar através de novos modelos de ensino e aprendizagem?

João Batista: Concordo que temos problemas sérios de pedagogia e gestão – e o principal deles é a falta da articulação entre ambos. Mas isso é apenas a parte visível do problema. O problema maior não é pedagogia ruim, é falta de conteúdo: não temos programas de ensino, em sua grande maioria os professores que conseguimos atrair para o magistério não possuem formação adequada, não dominam os conteúdos do que lecionam. É pouco o que se pode conseguir só com pedagogia, sem um professor bem formado. Problemas de gestão também existem em todos os níveis – mas eles decorrem mais de políticas equivocadas do que de incompetência das pessoas. Por exemplo, o governo se omite e delega à comunidade escolher os diretores por eleição – isso não tem como dar certo. O governo federal, ao invés de estimular a diversidade, atropela o funcionamento da federação o tempo todo. Vamos ver se o atual Ministro, que vem de uma experiência de prefeito e governador, muda esse vetor.

Brasil no Mundo: Como o senhor compara esse processo em relação a outros países como Estados Unidos, Coréia do Sul, Índia e China?

João Batista: Essas são situações muito distintas. A Coréia é um caso clássico de reforma educativa bem sucedida, implementada ao longo de cinquenta anos, e cuja característica principal é a implementação disciplinada e sequenciada de políticas educativas bem concebidas. A China tem pólos regionais de excelência – como Hong Kong, Xangai e outros – mas ainda convive com monumentais problemas de oferta, especialmente na sua gigantesca zona rural. Uma característica bem estudada do modelo educacional chinês é a boa calibração dos professores: eles não têm muitos anos de formação, mas aprendem a fundo aquilo que devem ensinar. A India tem algumas semelhanças com o Brasil – mas as dimensões são incomparáveis: a classe média Indiana tem o tamanho da população inteira do Brasil. Os problemas da Índia, inclusive na educação, são incomparavelmente superiores ao nosso e os recursos, bem menores. Estados Unidos são sempre um caso sui generis. Em média o país situa-se próximo à média dos demais países da OCDE, o que é um grande feito tendo em vista o seu tamanho e a diversidade de sua população. No topo, em diversos estados, há sistemas escolares tão bons quanto os melhores do mundo, e no ensino superior, continua imbatível. Como no Brasil, trata-se de uma sociedade profundamente desigual, e a educação também é oferecida de forma muito desigual.

Brasil no Mundo: A cidade chinesa de Xangai alcançou os maiores indicadores no sistema PISA de avaliação da OCDE. Será que os modelos aplicados em Xangai poderiam ser aplicados no Brasil?

João Batista: Há duas formas de aprender da experiência dos outros. Um é através das evidências científicas – o que funciona em todo lugar. O outro é pela análise das melhores práticas. Se o Brasil se dispusesse a utilizar esses dois parâmetros, muito teríamos a aprender da experiência internacional, como um todo, e de reformas educativas específicas, como as de Xangai. Mas o que mais interessa não é copiar o diferente, é entender que em todos os países onde a educação funciona, há um padrão que é comum a todos – e este é o trivial variado, mas de difícil costura: políticas educacionais consistentes e duradouras, instituições sociais e políticas robustas nas áreas críticas – finaciamento, currículo, formação de professores, avaliação e gestão. Um estudo que cito no livro, elaborado pela McKinsey, observa que o sucesso, ao tentar imitar uma experiência de êxito, não é copiar o que eles fazem hoje, mas o que fizeram quando estavam numa situação semelhante a nossa.

Brasil no Mundo: O senhor preside o Instituto Alfa e Beto (IAB), como o senhor avalia os trabalhos do IAB e quais as grandes metas considerando o cenário da Educação no Brasil?

João Batista: Até aqui a contribuição do Instituto Alfa e Beto se concentrou em duas frentes: a primeira foi a de implementar com sucesso programas de ensino estruturado desenvolvido com base em sólidas evidências científicas – na alfabetização, educação infantil, séries iniciais do ensino fundamental. Conseguimos bons resultados, que são de conhecimento público. Nossa última contribuição nessa área é o Galáxia Alfa, um software para alfabetizar as crianças. A segunda linha consiste em estimular e qualificar o debate educacional no Brasil. Cada vez mais o Instituto vem se firmando como um líder e referência na elaboração de relatórios técnicos e divulgação de evidências científicas robustas sobre o que efetivamente pode contribuir para melhorar a qualidade da educação.