Currículo

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  • O currículo é uma das “instituições” ou pilares de qualquer sistema educativo.
  • Mesmo antes de existirem escolas já existia um currículo. Isso vale para as diversas tradições religiosas, com seus livros sagrados e ritos de iniciação. E também vale para as tradições filosóficas, como as que foram apresentadas originalmente por Platão e mais tarde consolidadas no currículo clássico chamado “Trivium e Quadrivium”. O conteúdo dos currículos sempre esteve voltado para as chamadas “artes liberais” – que incluía o ensino da gramática, física, matemática, ética, dialética e retórica. Ele se opunha às “artes práticas” que se voltavam para a formação de artesão, técnicos e profissionais.
  • Ao longo da história da educação, mas especialmente no final da Idade Média os currículos vieram sempre associados a orientações a respeito de métodos ou formas para seu ensino. Exemplos são as propostas de Filipe Melâncton, Pierre de la Ram’é ou a “Ratio Studiorum” dos jesuítas. Currículos sempre estiveram comprometidos com a ideia de formação integral – e, nessa concepção, fins e meios, objetivos e métodos não são independentes. É nesse contexto que se deve entender a atual tendência de se falar em habilidades “sócio-emocionais’.
  • O primeiro livro de “pedagogia” publicado por Jan Amós Comênio detalhava não apenas o currículo, mas apresentava diretrizes gerais para o seu ensino. Comênio também detalhou os conhecimentos básicos que deveriam ser ensinados às pessoas comuns, tendo chegado, inclusive, a formular diretrizes para a alfabetização. O ensino de línguas – além do latim, que era a linguagem dos “estudiosos” – passou a integrar os currículos. As ideias de Comênio foram aplicadas inicialmente na Suécia desde o século XVII – e ao final do século XVIII já não mais havia analfabetos naquele país.
  • A Idade Moderna trouxe consigo a fragmentação do conhecimento e o surgimento de diferentes disciplinas cientificas. O movimento do “Enciclopedismo”, do final do século XVIII, ilustra uma das últimas tentativas de reunir todo o conhecimento existente – e que deveria ser ensinado e aprendido – pelo menos pelas pessoas mais educadas. Foi nesta época também que começaram a surgir escolas para o ensino das massas, e o currículo dessas escolas veio carregado das ideias enciclopedistas, com um número elevado de disciplinas e de conhecimentos específicos a serem ensinados e aprendidos.
  • No século XIX, o surgimento dos estados-nação levou as escolas a promover o ensino da língua nacional como parte da estratégia de consolidar a consciência “nacional” dos cidadãos. Parte da missão da escola passou a incluir a promoção da língua nacional e dos valores de cidadania. Novamente aqui se pode observar que o movimento das “habilidades sócio-emocionais” é parte de uma antiga tradição.
  • Hoje se torna impossível que qualquer pessoa seja capaz de absorver todo o conhecimento disponível. O desafio hoje é muito maior do que no passado, quando o ensino era voltado apenas para a formação de elites. Um currículo, no mundo contemporâneo, precisa especificar o que todos os cidadãos precisam saber até o final de um determinado tempo de escolaridade e, ao mesmo tempo, assegurar que todos tenham a opção de continuar a avançar os conhecimentos numa carreira técnica ou numa carreira acadêmica. Ou seja: além de definir com clareza os conhecimentos e habilidades que precisam ser comuns a todos, o currículo também deve assegurar ferramentas básicas que permitam ao indivíduo aprender a aprender, ou seja, que assegurem a “transferência da aprendizagem”.
  • A informatização revolucionou o mundo das comunicações e dos processos de produção e criou o fenômeno da “globalização”. O currículo – que antes era visto como algo limitado à formação dos cidadãos de um país – hoje também deve responder à formação do cidadão do mundo, de pessoas capazes de conviver “globalmente”. O Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Habilidades – simboliza esse ideal. A partir dele a maioria dos países desenvolvimentos reviu ou atualizou os seus currículos do ensino fundamental – especialmente nas disciplinas de Matemática, Línguas e Ciências.
  • Um currículo pode ser avaliado de acordo com 3 dimensões: foco, rigor e coerência.
    • Foco refere-se à concentração de itens ou conteúdos em cada série. Quanto mais foco, menos tópicos e mais profundidade. O aluno deve ter domínio do conteúdo de uma série para aprender o conteúdo da série seguinte. Abordar o mesmo conteúdo em série posterior deve envolver um nível maior de profundidade. Por exemplo, em uma série a criança aprende a identificar o personagem principal, em uma série seguinte deve ser capaz de encontrar no texto caraterísticas dessa personagem. Em matemática um exemplo é aprender os princípios do Sistema de Numeração Decimal a partir do primeiro ano fazendo contagens de dez em dez e nas séries seguintes aplicar esse conhecimento e do valor posicional para fazer os algoritmos das operações, com reagrupamento, até chegar à classe dos milhões, no quarto ano.
    • Rigor refere-se à ordenação dos conteúdos a serem ensinados em cada série escolar: um currículo rigoroso permite que um aluno que tiver aprendido o que foi prescrito para uma série esteja bem preparado para cursar a série seguinte. Rigor é característica de um programa de ensino sem lacunas em relação ao domínio dos conteúdos.
    • Coerência refere-se à articulação entre o Programa de Ensino e o conteúdo de uma determinada disciplina. Quanto mais reflete a estrutura da disciplina, mais coerente é um programa de ensino. A coerência também se expressa na progressão que vai dos conhecimentos mais simples e básicos (ortografia, operações ou definição de um fenômeno) para conhecimentos mais complexos (sintaxe, propriedades dos números ou princípios científicos).
  • Além disso um currículo também pode ser avaliado por outros critérios como a clareza, por exemplo. Ou seja: se os usuários (professores) são capazes de entender e implementar. Ou ainda pode ser avaliado em relação a currículos de outros países.
  • Um exame dos sites dos ministérios de educação dos países desenvolvidos permite observar que em todos esses locais:
    • Os currículos são organizados por níveis e, dentro de cada nível, por séries e, em cada série, por disciplinas.
    • Para cada disciplina são especificados os conhecimentos e/ou habilidades esperadas dos alunos – seguindo uma estrutura e sequência bastante nítidas.
    • A linguagem dos currículos geralmente é clara – eles são feitos para serem lidos e entendidos pelos professores, que são responsáveis por sua implementação.
    • Em alguns países os currículos também incluem recomendações quanto a métodos e outras atividades.
    • Currículos são atualizados com uma frequência relativamente grande – raramente os países demoram mais de uma década para promover atualização em aspectos de seus currículos
  • Além disso um currículo também pode ser avaliado por outros critérios como a clareza, por exemplo. Ou seja: se os usuários (professores) são capazes de entender e implementar. Ou ainda pode ser avaliado em relação a currículos de outros países.

Referências básicas:

Koenig, J. A. (Ed.) Assessing 21st Century Skills: Summary of a Workshop. Washington, D.C.: The National Academies Press, 2011
Oliveira, J. B. A. (org.). Fraturas na Base: Oliveira, J.B.A. (org.) Fraturas na Base – Fragilidades estruturais na BNCC – A Base Nacional Curricular Comum. Rio de Janeiro Instituto Alfa e Beto (2018).Samuelsson, I. ; Sheridan, S., Williams, P. Five preschool curricula – comparative perspective. International Journal of Early Childhood, vol. 38, no 1, 2006Schmiidt, W.H. Thouang, R., Shankrani, S. International lessons about national standards. Washington, D.C. : Thomas B. Fordham Institute, 2009

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