Entrevista com Márcia Leal, empreendedora social e parceira do Instituto Alfa e Beto

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márcia leal

A psicóloga Márcia Leal, empreendedora social que recentemente criou o Instituto Raiar, é parceira do Instituto Alfa e Beto na implementação de projetos de alfabetização em escolas de cidades como Samambaia (DF) e Viamão (RS).

Depois de atuar no setor privado na área de gestão e desenvolvimento de lideranças, ela deu uma guinada na carreira para levar sua experiência ao terceiro setor, em especial nas áreas de educação básica e Primeira Infância.

Na entrevista que segue, Márcia fala de sua trajetória profissional, seus desafios iniciais (incluindo encontrar programas comprovadamente eficazes na área de alfabetização) e seu propósito principal, que é apoiar o desenvolvimento das crianças, mobilizando a sociedade e os governos para a urgência dessa questão.

O que a motivou a se tornar uma empreendedora social na área da educação?

R: Eu era executiva de uma empresa familiar, que depois foi vendida. Isso abriu caminhos para um recomeço profissional. Sempre tive um olhar orientado para essa perspectiva humana e social, e tinha interesse em levar minha experiência gerencial para soluções que pudessem apoiar pessoas em situação e vulnerabilidade. A escolha pela área de educação foi muito natural para mim. Sempre fui apaixonada pelo universo das crianças, e gostava de me inteirar do cenário da infância no Brasil. Há muita informação disponível sobre os problemas relacionados à infância e à educação pública. Comecei a me perguntar: o que posso fazer para ajudar a resolver esses problemas? Sempre considerei fundamental haver lideranças orientadas por propósito, com boa formação técnica e gerencial. Decidi, então, trabalhar com o desenvolvimento de gestores escolares. Mas ainda faltava uma ideia clara do que eu poderia fazer. Eu não era da área de educação. Tinha familiaridade com processos de gestão, mas nenhuma familiaridade com soluções pedagógicas. Eu imaginava que essas soluções estivessem nas próprias escolas públicas, e que o problema era de gestão. Havia indicadores disponíveis para entendermos a situação do ensino no país e boas políticas públicas que não eram implementadas. Deduzi que o problema pudesse ser de liderança. Resolvi, então, começar com um trabalho piloto. Me associei a uma escola de uma cidade satélite de Brasília com um IDH bastante baixo. Tentei construir com a diretora uma parceria capaz de impactar as crianças positivamente. No primeiro ano, tentamos criar algumas métricas. Me assustou que a escola não tivesse métricas periódicas para avaliar resultados, nem currículo, planejamento, programa de ensino mais estruturado. Comecei a trabalhar na estruturação de um currículo, na orientação dos professores e na produção de métricas de resultados. No 2° ano, eu já estava segura para me associar a uma segunda escola. Tinha um plano de ensino, um recurso orientador para o trabalho pedagógico, mas as minhas avaliações mostravam que eu não estava impactando o desempenho. Pensei: o problema deve ser capacitação. Começamos a capacitar professores, mas, mesmo assim, os resultados foram aquém do que eu esperava. No 3° ano, consegui uma parceria com uma terceira escola. Já tínhamos uma visão mais estruturada para dar apoio à gestão escolar, mas, ainda assim, eu não sentia que havia amarração suficiente para garantir o impacto efetivo nas crianças, que, claro, era meu principal objetivo

Desde o início, o seu foco foi alfabetização?

R: Sim, comecei a atuar em escolas do primeiro ciclo do ensino fundamental, algumas com educação infantil. Sabia que o primeiro degrau que as crianças precisam transpor é a alfabetização. E os indicadores mostravam – e mostram – que o resultado tem sido ruim já nesse primeiro degrau. Então, passei a buscar soluções para uma alfabetização satisfatória. Mas foi difícil conseguir uma proposta clara e objetiva a respeito de como se alfabetizar uma criança. Como profissional de gestão e não da área de educação, eu esperava que essa resposta estivesse nas escolas. Eu questionava as metodologias, não conseguia encontrar nelas nenhuma direção clara. Para mim, alfabetização era – ou deveria ser – um processo claro. Fui alfabetizada, acompanhei a alfabetização dos meus filhos. Sabia que, em algum lugar, alguém deveria ter isso de uma forma mais estruturada, de uma forma que eu não estava encontrando na escola. Por conhecer os indicadores públicos, eu sabia que a cidade de Sobral era uma referência em alfabetização, e decidi conhecer a experiência deles.

Foi nesse contexto que você conheceu o Instituto Alfa e Beto?

R: Sim, em Sobral conhecemos a metodologia do Instituto Alfa e Beto. Fiquei muito surpresa, porque chegamos lá na segunda semana de aula do ano letivo de 2015, visitamos uma sala de 2º ano e as crianças estavam lendo fluentemente. Era tudo o que eu desejava para o desempenho das crianças das escolas do Distrito Federal em que eu vinha atuando. O Instituto Alfa e Beto era e é parceiro do programa de alfabetização de Sobral. Logo depois participei de um fórum que o Instituto realizou em Brasília, e propus uma associação para levar a metodologia para as escolas que eu atendia. Eu não era uma cliente típica do Instituto, que trabalha com secretarias de educação – era uma empreendedora social de pequeno porte, com três escolas. Mas o presidente do Instituto Alfa e Beto, professor João Batista Oliveira, foi muito receptivo, e em 2016 fizemos a primeira parceria. Trabalhamos juntos em 13 turmas de quatro escolas. Fiz uma mensuração de resultados ao final de 2015 e também ao final de 2016 para saber qual era o nível de alfabetização das crianças antes e depois da parceria com o Instituto. De 34% das crianças atendendo aos requisitos mínimos de decodificação, fluência e compreensão de leitura, passamos para 70% em apenas um ano de trabalho, mesmo com todos os desafios. Isso me encantou muito, porque o resultado estava ali.

No que consiste o Pacto Viamão pela Alfabetização e por que a cidade foi escolhida?

R: Sempre achei que, se tivesse uma boa solução em mãos, eu poderia influenciar a política pública. Todo empreendedor social com algum nível de audácia tem a pretensão de fazer com que seu trabalho ganhe escala, e para ganhar escala, é necessário se associar ao poder público. Como nunca tinha trabalhado com governos, procurei o professor João Batista Oliveira para me aconselhar a respeito. Ele sugeriu que eu tentasse me associar a alguma prefeitura. Tentei contato primeiro com algumas prefeituras no entorno de Brasília, mas não tive sucesso. Casualmente, fui a um evento em Viamão, na Grande Porto Alegre, para falar sobre o meu trabalho como empreendedora social na área de educação. Falei com o prefeito, que estava presente na palestra, sobre a possibilidade de uma parceria com o município. A ideia era fazer uma experiência com o objetivo de começar a transformar a realidade da educação do município. E ele topou. Isso foi no final de 2017. No ano de 2018, começamos a implementação com as etapas de diagnóstico. No segundo semestre daquele ano, iniciamos um programa intensivo de alfabetização para aproximadamente 2.500 crianças de 60 escolas (aproximadamente 120 turmas). A parceria foi denominada Pacto Viamão pela Alfabetização. No primeiro ano de trabalho, ainda que com um programa intensivo e com metade dos dias letivos, conseguimos alfabetizar 64% das crianças. Até então, o indicador do município era de 38% das crianças alfabetizadas ao final do 3º ano. Tínhamos uma evidência clara do progresso significativo da aprendizagem das crianças. Em 2019, estendemos o programa para o 2º ano, e tivemos, ao final do ano letivo, 73% das crianças alfabetizadas no 1º ano. Naturalmente, houve um amadurecimento das estruturas de gestão pedagógica do município, uma familiarização dos professores com a metodologia, uma redução das resistências naturais. Fiquei bastante satisfeita e estimulada a seguir com esse desenho de parceria com municípios. No final do ano passado, conseguimos uma nova associação com uma outra prefeitura da mesma região. Estamos agora em fase de diagnóstico para fazer a implementação neste ano de 2020.

Que balanço faz dos resultados e impactos obtidos até agora?

R: O balanço é o mais positivo possível. Estou no meu quinto ano de parceria com o Instituto Alfa e Beto, e no meu oitavo ano de empreendedorismo na área de educação pública. Tenho agora um desenho maduro de atuação para impactar crianças em condição de vulnerabilidade. Isso naturalmente cria um horizonte magnífico e me leva a deixar de empreender de forma isolada, como uma pessoa física, e a constituir um instituto. Estamos dando corpo a novas possibilidades de atuação conjunta com municípios. Queremos melhorar a qualidade da educação pública e mobilizar as comunidades na direção do desenvolvimento pleno das crianças. Hoje, minha expectativa de empreender socialmente vai além da educação e da alfabetização. Meu olhar está voltado para a Primeira Infância como um todo. É um horizonte ainda em investigação. Temos espaço em Viamão para avançar na implementação de programas voltados para a Primeira Infância, em parceria com o município e com o Instituto Alfa e Beto. Nosso objetivo é o desenvolvimento pleno de crianças em condição de vulnerabilidade social, com ações que começam na gravidez e se estendem até o final do ensino fundamental. Temos, ainda, alguma coisa relacionada à questão dos adolescentes, mas, sem sombra de dúvidas, o trabalho hoje mais estruturado e com mais evidências de bons resultados é o da educação básica. Esses resultados estão servindo como um lastro para que as pessoas comecem a pensar de forma mais estruturada, mais sistêmica e mais orientada por indicadores ao tratar dos problemas relacionados à infância e aos jovens. Estou muito estimulada a prosseguir com esse modelo de trabalho baseado em diagnósticos precisos e evidências robustas. Precisamos continuar trabalhando pelo amadurecimento das estruturas públicas de gestão, pela transformação cultural e pela mobilização das comunidades para dar sustentabilidade a essas soluções. Nossa atuação passou a ter uma amplitude maior, com parcerias que envolvem secretária de educação, de saúde, e de assistência social, além de conselho tutelar, conselho municipal de educação, conselho de direitos da criança e do adolescente. Todos agentes devem estar orientados por uma visão clara do que fazer para garantir o desenvolvimento pleno das crianças e dos adolescentes.

E quais são os planos para o futuro?

R: Meu foco este ano é o Instituto Raiar, criado recentemente com o intuito de contribuir para o fortalecimento da rede de proteção do desenvolvimento de crianças e adolescentes. Queremos potencializar a escola pública como espaço de desenvolvimento, e para isso é necessário apoiar o amadurecimento das estruturas públicas de gestão. O Instituto nasce com essa vocação. Teremos um braço de comunicação bastante forte para poder criar um tecido social capaz de dar sustentação às políticas públicas implementadas gradualmente. Queremos mobilizar a comunidade em torno da causa da infância e da adolescência. Em Viamão, percebemos que há uma conscientização crescente no que diz respeito à necessidade de a sociedade civil atuar em parceria com as estruturas públicas de gestão para proteger as suas crianças.

Com que país você sonha e de que forma cada pessoa e cada organização da sociedade civil podem contribuir para termos um país melhor?

R: O que me mais comove não só como empreendedora social, mas como cidadã, é que a nossa sociedade não cuida das suas crianças. De alguma forma, perdemos a conexão com essa responsabilidade básica. Me assusta que tenhamos chegado a níveis tão alarmantes de desatenção às crianças e aos jovens do nosso país. Os indicadores são alarmantes. São péssimas as condições de nascimento de boa parte de nossas crianças. Muitas delas crescem em meio a condições precárias, sem saneamento básico. Há também a questão da gravidez na adolescência. Os números da violência contra criança e de encarceramento e de morte de jovens também são dramáticos. As avaliações de aprendizagem da educação pública mostram um quadro de estagnação em um nível muito baixo. É urgente que nos mobilizemos para enfrentar esse quadro. Cada um de nós tem um poder limitado, mas a atuação em rede pode ampliar de forma considerável a inteligência sistêmica e o alcance de ações dirigidas à causa da criança e do adolescente. Acredito que o trabalho em comunidades menores tem um grande potencial de mostrar para todo o país que é possível termos uma atitude mais responsável e mais consciente em relação às crianças. O Instituto que estou criando nasce com essa esperança, com esse propósito. Meus planos para o futuro têm essa diretriz: despertar e fortalecer a consciência dos gestores públicos e da comunidade como um todo em relação à urgência de priorizarmos os cuidados com as crianças e adolescentes do nosso país.

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instituto alfa e beto
Priscila Kepler, Joás Garcia, Carlos Bennech (Secretário de Educação), Márcia Leal e Luciana Ferreira.