Coronavírus: o que as escolas e redes de ensino podem fazer durante a crise?

Em tempos de reclusão devido à crise do coronavírus, todos se perguntam: o que fazer com as crianças em casa? Neste post, o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira, dá algumas dicas para escolas e redes de ensino.

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Em todo o mundo, inclusive no Brasil, governos e redes de ensino estão aprendendo a lidar com a crise do coronavírus: o que fazer com as crianças em casa? As redes e escolas de ensino particulares saíram na frente – a maioria dos alunos está conectada e a partir daí não é muito difícil inventar mil e uma formas de dar continuidade ao trabalho escolar. Além disso, contam com famílias que tipicamente dispõem de tempo e valorizam a educação e um mínimo de disciplina e diligência. Mas o que fazer nas redes públicas?

Há muito o que fazer, e certamente não há uma solução única. Apresentamos aqui breves reflexões e recomendações concretas, em linhas tão gerais quanto permite este espaço.

Para todos vale uma orientação geral: ajudar alunos e famílias a organizar as rotinas do dia a dia, dedicar algum tempo para o estudo, leitura e trabalho escolar, fazer exercícios físicos dentro de casa e ao ar livre, e reduzir ao mínimo possível o tempo de televisão e dos joguinhos.

Agora vamos às sugestões específicas.

Primeiro, tratamos das Secretarias Municipais de Educação e escolas que possuem currículos robustos e adotam alguma forma de ensino estruturado. Nesses casos, a vida é bem mais simples: orientar os alunos – e no caso dos menores, seus pais – sobre o que fazer a cada dia. Fazer em casa o que seria feito na escola. Havendo recursos e tecnologia, as Secretarias também poderiam dar feedback e mesmo receber e corrigir deveres – ou pelo menos dar as chaves de correção para os pais e/ou alunos. Ou disponibilizar acesso a atividades no site da secretaria (ou da escola) ou, ainda, indicar locais para referência. Onde houver tradição e clima, fazer leituras associadas à redação constitui uma importante oportunidade de avançar. Um pouco de cada vez, dosado e calibrado, ajuda mais do que enviar uma avalanche de informações e links desconectados. Aqui, mais do que nunca, cabe focar no essencial – Linguagem, Matemática e Ciências –, onde as perdas têm maior consequência para os alunos. E atenção: falta de aulas causa perdas reais, que precisam e podem ser minimizadas.

Para quem não possui currículos rigorosos e não usa um ensino estruturado, a vida é mais difícil. Aqui se trata de transformar limão em limonada e aprender rapidamente a organizar o ensino – como sempre deveria ser. O caminho mais curto é identificar instituições ou programas disponíveis e organizar o que pode e deve ser feito – de preferência a cada dia ou cada semana. Uma alternativa é identificar um conjunto de atividades pertinentes, interessantes e relevantes que já estejam organizadas (em formato impresso ou eletrônico) e disponibilizar para os alunos, com as devidas instruções.

Há várias atitudes que não ajudam. Uma é reclamar do MEC ou dos outros. Guerra é guerra, cada um deve procurar seus aliados – o inimigo agora não é o MEC, é o coronavírus, e o que fazer para ajudar as famílias e crianças a não agravar o atraso escolar. Outra atitude é invocar os álibis habituais – não há internet, as famílias que não ajudam, pais não alfabetizados, falta de condições em casa. Esta é a realidade que já existe, não deve ser desculpa para inação. Também não ajuda reforçar a ideia de “coisas interessantes”, propor atividades “bacanas”, mas totalmente desconectadas entre si ou do currículo (que a escola deveria estar seguindo). Reinventar a roda também não é recomendável – toma tempo e dificilmente conseguimos produzir uma roda melhor dos que as que já foram testadas. É melhor fazer algo mais pedestre, simples e articulado, do que exercitar a “criatividade local” ou promover “belezuras” para entreter, mas sem propósito e objetivo claro. Mas, se a Secretaria ou escola não tiver ideias claras e consistentes sobre o que fazer, é melhor usar coisas boas – ainda que desarticuladas – do que deixar passar em branco a oportunidade. Na pior das hipóteses, vão aprender a lidar com novas situações – e refletir sobre a importância de ter um currículo rigoroso.

Há espaço para escolhas mais saudáveis. Bons materiais estruturados para rever conteúdos básicos também constituem uma proposta saudável. Quem puder emprestar livros (com os devidos cuidados de higiene) poderá iniciar uma saudável tradição de leitura. Isso pode ser feito a partir de escolas, bibliotecas ou mesmo com entregas feitas por meio de redes de voluntários. Onde houver acesso a rádio e/ou televisão local, bons professores podem se revezar para apresentar aulas interessantes – dentro de “unidades” consistentes e bem estruturadas. Aqui também haveria espaço para interessantes aulas de artes, ciências e história. Esta seria uma oportunidade imperdível para mostrar aos professores – em público – modelos de boas aulas.  Improvisar com o uso de mídia não oferece grandes perigos, e há muitos conselhos gratuitos disponíveis. Aí dá para usar a “prata da casa”, mesmo que a prata não seja tão valiosa. O que não dá para fazer é improvisar no conteúdo – o que for feito precisa ser sólido e realizado por instituições e pessoas experientes e competentes.

Uma das maiores dificuldades das pessoas é saber como encontrar ajuda e como avaliar a adequação da ajuda às suas necessidades. Há vários fatores a pesar. Mas um deles é universal: se você procurar ajuda, procure ajuda de quem tem experiência e resultados para mostrar. Mesmo em circunstâncias extremas, como as atuais, crianças não devem ser tratadas como cobaias.