Pandemia e a volta às aulas

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Volta às aulas: o que dizem as evidências? No que se refere a riscos de contaminação, as evidências dizem que as escolas vêm funcionando com diferentes graus de normalidade em um número significativo de países; em vários deles as creches nunca fecharam; e são relativamente poucos os casos de contaminação e pouquíssimos entre crianças menores. Há poucos estudos robustos e muitas conclusões apressadas sobre prejuízos à aprendizagem, mas, de modo geral, é de se esperar algum atraso em relação ao que os alunos da mesma série sabiam em anos anteriores, principalmente no caso dos grupos mais desfavorecidos. No Brasil, em que os avanços a cada ano são ínfimos, as perdas não deverão ser tão desastrosas. Maior é o risco de deserção escolar.

As autoridades brasileiras relutam em reabrir as escolas. Privilegiam a abertura de bares, boates e shoppings. Os políticos sabem que a população não confia muito que as escolas irão oferecer um ambiente seguro. Mas, em algum momento, as escolas deverão reabrir. O que esperar? Que lições tirar da pandemia?

Esses temas povoam inúmeras publicações científicas. O gestor público não pode esperar pelos resultados, que nunca serão definitivos ou livres de controvérsias e contestações – é assim que a ciência avança. O que fazer? O que esperar na volta às aulas? Tendo acompanhado de perto o que vem ocorrendo pelo mundo afora e em dezenas de municípios do país, arrisco-me a levantar algumas questões e apresentar algumas sugestões em forma de desafios.

O primeiro deles é o de reabrir as escolas. Protocolos são conhecidos. No país, há várias experiências de escolas que já vêm funcionando. Não há mistério. É pegar e fazer. Ou largar. Ou adiar.

O segundo é decidir o que fazer. Há municípios em que houve um trabalho sistemático de apoio às famílias e alunos e uma interação bastante vigorosa via redes sociais. Aí não haverá surpresas – os professores têm uma noção bastante clara de onde se encontram os seus alunos. Parecem sensatas duas iniciativas: a primeira seria a de promover formalmente os alunos para a série seguinte. A segunda seria manter os alunos, especialmente os menores, com os mesmos professores. De um lado, isso premia os docentes que se dedicaram mais e terão menos trabalho de recuperação. De outro, torna o retorno mais familiar aos alunos, o que é especialmente relevante dado o risco de novas interrupções.

Diagnosticar os conhecimentos dos alunos nos primeiros dias, após uma adequada acolhida, pode ser uma boa medida. Mas a eficácia do diagnóstico requer o uso de instrumentos confiáveis e referenciados a um currículo robusto. Aqui entramos no terreno das fragilidades e do risco do formalismo e da volta à mesmice. A pandemia não eliminou os graves problemas de entendimento do que seja e de como fazer educação de qualidade.

O próximo desafio é decidir o que fazer, em que se concentrar, por onde começar. A pletora de pareceres e resoluções eivadas da verborragia característica dos conselhos de educação já começa a poluir o horizonte. Nada disso ajuda. Tampouco ajudam iniciativas que propõem “enfatizar os conteúdos essenciais de todas as disciplinas”. Esta é a receita mais equivocada e, no entanto, a mais difundida. Em situações de potencial perda, como as que vivemos, o mais sensato é focar nas disciplinas essenciais, Língua Portuguesa e Matemática e, se houver fôlego, nas Ciências. E nelas, cumprir todo o currículo.

E aqui justamente pode residir a grande oportunidade de reforma educacional pós-pandemia: focar na alfabetização. Quem mais perdeu com a pandemia foram os alunos que não conseguem ler e escrever sozinhos. Isso inclui metade ou mais dos alunos das séries iniciais, sem contar as crianças do pré-escolar. O segundo grupo é o daqueles que nunca adquiriram fluência de leitura e hábitos de estudo independente – e aqui se inclui um contingente expressivo de alunos de todos os níveis.

Nunca na história moderna a sociedade teve oportunidade de reavaliar as funções da escola. A função de custódia – cuidar das crianças para os pais poderem trabalhar – sempre foi uma delas, e agora será mais valorizada. A função de formar “aprendizes autônomos” e pessoas com hábitos de estudo, que sempre esteve no papel, agora precisa deixar de ser letra morta. A escola, como espaço seguro e controlado para formar e manter relacionamentos saudáveis, também deverá ser olhada com maior atenção – basta ver que a falta dos colegas é uma das maiores reclamações deste período, especialmente entre os jovens. A escola que não opera sozinha, mas depende de uma fecunda e respeitosa colaboração com os pais… Quantos fundamentos a serem valorizados e repensados! Mas, antes de tudo, cabe à escola cumprir o seu papel principal de ensinar e promover a aprendizagem do que a sociedade considera relevante.

Para além da “reinvenção” e do eterno mito da “cura pela tecnologia”, este é o grande momento de a escola dizer efetivamente a que veio. Vamos reabrir as escolas? Vaciná-las contra a ineficiência? Vamos fazê-las funcionar?

Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo