Em entrevista para a rádio CBN, João Batista Oliveira fala sobre as sequelas deixadas pela pandemia no cenário da educação

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volta às aulas

O presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira, deu no último sábado, 16 de janeiro, uma entrevista para a Rádio CBN para falar sobre as sequelas deixadas pela pandemia no cenário da educação. A entrevista foi dada à apresentadora Nadedja Calado, do programa Show da Notícia.

Ouça a entrevista completa aqui ou leia abaixo a sua transcrição.

Nadedja Calado – CBN: Meses depois do início da pandemia, em que ponto estamos? Já vimos as escolas fechando, e com a flexibilização, o processo ficou irregular, dependendo do lugar do Brasil. Algumas abriram, outras precisaram fechar. Como avaliar o cenário nacional como um todo?

João Batista Oliveira: Há uma grande diferença entre as escolas públicas e privadas. As privadas têm uma pressão maior para abrir. A maioria abriu nas séries iniciais e pré-escola ou estão funcionando à distância com bastante fidelidade e empenho. Porque os alunos têm recursos e tecnologia em casa, têm apoio. Na rede pública, a variação é muito maior. Não temos notícias precisas. Tenho informação de vários municípios. As iniciativas são diferentes. Há muito esforço por parte das redes, mas varia muito de rede para rede. A qualidade varia também. Nesse momento, mudou a percepção de grande parte dos educadores de que é importante fazer funcionar. Idealmente abrir. Muitas redes têm publicado que vão abrir em fevereiro ou março. Isso é uma mudança grande, até aqui não se ouvia isso. Se vão abrir mesmo, vamos ver.

Nadedja Calado – CBN: Antes da pandemia, já havia essa desigualdade entre alunos de diferentes classes socioeconômicas. Estamos vendo uma piora nessa situação?

João Batista Oliveira: Temos duas questões importantes aí. A primeira é que, no Brasil, os alunos da escola privada na maioria dos casos têm um nível socioeconômico mais elevado. Muitas escolas privadas também atendem alunos de nível socioeconômico mais baixo. Alguns alunos de nível socioeconômico mais alto estão também em escolas públicas, sobretudo no ensino médio, em escolas federais. Mas, de modo geral, é dividido assim. Então, há uma divisão pela questão socioeconômica. É assim e vai continuar. Quando a situação das pessoas melhora um pouquinho, elas colocam o filho na escola privada, que é um símbolo de status no Brasil. Essas coisas são culturais. Nossas diferenças sociais são muito grandes e repercutem na educação.

Agora, a questão que você toca é importante: já havia a desigualdade antes, dentro das redes públicas. Essa é a grande questão. A pandemia vai agravar, mas esse não é o principal. O problema principal é o que precisamos fazer com o sistema educacional público para que ele seja melhor e mais justo, com menos diferenças entre escolas de uma mesma rede e também entre as redes. Essa é a grande lição que precisa ser aprendida. Não tenho visto preocupação com isso.

Nadedja Calado – CBN: Faltou prioridade para que as escolas fossem abertas durante a flexibilização das atividades? Vimos na Europa, na segunda onda, que quando foi necessário fechar novamente, não se fechou as escolas.

João Batista Oliveira: Claro que sim. Sentimos, e os políticos refletem isso, que, no caso do Brasil, as famílias relutam muito em mandar os filhos para a escola. Especialmente escolas públicas. Me parece que é muito menos uma questão de não valorizar a educação e muito mais uma dúvida quanto à capacidade do poder público de oferecer um ambiente seguro. É uma mistura de interpretação. Isso foi reforçado por sindicalistas também. Em outros países, como os EUA, teve reação também. É um sentimento misto dos pais. Claramente, no Brasil como um todo, se tiver que abrir boteco, boate ou escola, vota-se por abrir a boate e o boteco.

Nadedja Calado – CBN: Cerca de 10 meses depois do início da pandemia, ainda temos dificuldade do acesso ao ensino remoto. No longo prazo, quais impactos para os estudantes e para a educação? Isso se refletirá lá na frente?

João Batista Oliveira: Sabe-se pouco quanto a isso. Em alguns casos, já tivemos fechamento de escolas em outros países por conta de guerras, mas não temos resultados empíricos para analisar. Este ano chegaram dados robustos de escolas dos EUA que ficaram fechadas, e os resultados não são terríveis. Mostram o esperado. Em linguagem não há perda, porque as crianças continuam falando, lendo, aprendendo. Em matemática há alguma perda, mas nada extremamente grave. O grave é que as perdas são maiores em grupos mais fracos. É triste, mas não é uma grande novidade. Na experiência de outras epidemias e fechamentos maiores, como férias escolares, o que vemos é que, quando o sistema escolar coloca em prática o que é preciso fazer, em um ano e meio ou dois recupera-se o que foi perdido nessas circunstâncias. Mas os grupos mais vulneráveis precisam receber maior atenção quando retornarem as aulas presenciais.

Nadedja Calado – CBN: Além do currículo em si, outro aspecto nesse fechamento é a questão psicológica e social. Acompanhamos já depoimentos desses reflexos. Casos de crianças menores que não se lembram dos nomes dos professores e colegas. Elas desenvolvem problemas psicológicos pela falta de socialização. Isso também é componente do processo de aprendizado…

João Batista Oliveira: Há muitas evidências sobre situações de stress em geral. O que acontece é que entre 8% e 12% da população em geral tem algum tipo de dano. São pessoas que, em outras condições, são mais suscetíveis a stress. Têm menos resiliência para essas situações. Não quero minimizar, mas a vida é assim. As pessoas sofrem e reagem de maneira diferente. A maioria acaba se adaptando e adquire uma fortaleza que essas situações proporcionam. Há ganhos também, para muitos grupos. Ganhos de auto suficiência, autonomia. Pais que estão acompanhando as crianças – 90% deles afirmam estar acompanhando as crianças. Isso é um ganho, os pais aprendendo a acompanhar a vida escolar das crianças, aprendendo a se relacionar com as escolas. Crianças que aprendem a estudar sozinhas ou aprendem a fazer coisas por conta própria. A própria saudade da escola vai marcar muita gente. Nunca pensei que as pessoas sentiriam tanta falta da escola! Temos que pensar nos pontos positivos, sem negar os negativos. Eu mesmo tenho minhas perdas – falta de contato com minhas netas, por exemplo. Mas a vida tem outras marcas. Sobre os grupos que podem estar sendo mais prejudicados: crianças que estão nascendo nessa época, sobretudo em famílias menos aquinhoadas, com problemas de segurança alimentar, poderão ter impactos negativos duradouros.

Quem está terminando o ensino fundamental ou médio também tem grande chance de não terminar ou terminar e não ter mercado de trabalho. Quem não consegue emprego logo depois que acaba os estudos tem mais dificuldade de arranjar emprego no resto da vida. Esses são grupos devem ser mais marcados. Seria importante haver políticas voltadas para eles.