“Marco inicial na volta às aulas este ano deve ser a acolhida aos professores, pais e alunos”, diz o presidente do Instituto Alfa e Beto em palestra sobre os desafios do ensino durante a pandemia

Evento foi direcionado para os profissionais de educação das cidades cearenses de Uruoca e Guaraciaba do Norte, além de Santa Carmem, no Mato Grosso.

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volta às aulas

O professor João Batista Oliveira fez uma palestra no último dia 25 para gestores e profissionais da área de educação das cidades cearenses de Uruoca e Guaraciaba do Norte, e Santa Carmem, no Mato Grosso. Ele falou sobre os desafios do ensino durante a pandemia.

Os dois municípios cearenses são parceiros do Instituto Alfa e Beto desde 2008, e Santa Carmen desde 2006. Guaraciaba do Norte adota o programa de alfabetização do Instituto, voltado para o 1° ano. Uruoca utiliza o programa estruturado (2º ano), além do programa de alfabetização (1º ano). Santa Carmem adota programas do pré II ao 5º ano.

Seguem os principais tópicos da palestra que também pôde ser acompanhada por diretores e professores de outras cidades por meio do canal do Instituto Alfa e Beto no YouTube:

Acolhida aos professores, pais e alunos

“Ao falar sobre os desafios da volta às aulas em tempos de pandemia, vou me concentrar em um aspecto: a acolhida aos professores, pais e alunos. Tenho acompanhado e refletido sobre o que vem acontecendo na educação no Brasil e em outros países. Por mais que tenhamos aflições e problemas, não devemos repetir em 2021 o que fizemos em 2020, fazer mal feito ou improvisar. Temos que já estar preparados para as três possibilidades: o ensino à distância, o ensino híbrido e o ensino presencial. E o marco inicial na volta às aulas deve ser a acolhida aos professores, pais e alunos”.

Professores

“Nós, professores, tivemos diferentes experiências pessoais em nossas casas, famílias e grupos de convivências, além da nossa experiência como professor. Não conheço ninguém para quem essas experiências tenham sido fáceis. De certa forma, somos todos sobreviventes – e como tal, ficamos mais fortes. O que nos compete fazer? Como devemos acolher e sermos acolhidos nas nossas escolas neste ano de 2021?

Um primeiro passo importante é compartilhar experiências. Na volta às aulas, é importante criarmos espaços para que diferentes experiências sejam compartilhadas. 2021 não é mais um ano – é um ano totalmente diferente. É um ano em que voltamos com muitas vivências que devem ser divididas. É importante que haja uma catarse e um desafogo dessas coisas todas que estão presas na nossa garganta. Isso também nos permitirá trocar e adquirir conhecimentos e ensinamentos necessários para enfrentarmos os novos desafios.

Algumas questões devem alimentar essa reflexão. Como interagimos com nossos diretores e vice-versa? Como é ser um diretor à distância e como é ser um professor que tem um diretor à distância? O que aprendemos com isso? Como contribuir para o diretor dirigir melhor a escola? Ao final de cada pergunta, vem sempre a reflexão: como tudo isso pode nos ajudar este ano?

Da mesma forma, é importante perguntar como interagimos com nossos alunos. Essa interação mudou alguma coisa em nós? Mudamos nosso modo de agir? Temos perspectivas diferentes em relação aos nossos alunos? Como vamos receber os novos alunos?

Precisamos ver também como foi a interação com os pais nesse período. No dia a dia da escola, não interagíamos tanto com eles. Interagir em várias dimensões da vida e na intermediação da relação pedagógica entre pais e filhos. O que aprendemos com os pais? O que podemos incorporar nessa nova caminhada quando a escola voltar ao normal?

Nesse processo de reflexão e acolhida, é preciso avaliar nossas próprias contribuições. Onde e como fiz a diferença na minha escola, para o meu diretor, para o meu colega, para meus alunos e suas famílias?

Não devemos começar o ano letivo sem antes compartilhar experiências, refletir sobre elas e celebrar o que aprendemos.

Parte das reflexões está relacionada ao que aprendemos. Vamos voltar a ser iguais? Aprendemos alguma coisa muito diferente sobre como nos relacionar com os colegas, diretores, alunos e pais? O que aprendemos sobre o ensino? Ele muda quando não estamos presentes? O que aprendemos sobre nossos alunos que não sabíamos antes? Afinal, convivemos tanto tempo com eles no passado. O que sabíamos sobre as famílias e o que sabemos agora? Como usar esse conhecimento para impulsionar e melhorar não apenas o relacionamento, mas as condições de aprendizagem das crianças? Como aproveitar o que aprendemos para estabelecer novas formas de relacionamento com os pais e sobretudo para desenvolver o que é fundamental na escola: a autonomia dos nossos alunos? A educação serve para formar seres autônomos, não dependentes. A pandemia colocou isso em teste. O que aprendemos para desenvolver a autonomia das crianças?

Também devemos compartilhar com os colegas nossas percepções em relação às práticas de ensino à distância e de ensino híbrido. As melhores práticas devem ser utilizadas este ano”.

Pais

“Neste início de ano escolar, também é muito importante conversar com os pais da forma como for possível – pessoalmente, chat, telefone etc. Vamos falar com os pais, tomar o pulso deles, ver como foi e está sendo a pandemia para eles. Fazer um balanço geral do ano junto com eles. Não dá para recomeçar como se estivéssemos em um ano normal, fazer de conta que não houve nada. Será mais um ano atípico. Temos que explicar as regras do jogo, ouvir o que eles têm a dizer, o que estão fazendo e sentindo. A questão principal nessa acolhida aos pais é não apenas ouvir, mas aprender novas formas de ouvir. Sem a participação efetiva dos pais, não vamos educar as crianças.

Podemos fazer relatos das experiências dos pais que queiram compartilhar. Atentar para a relação deles com a escola e com as crianças – o que deu certo, o que não deu, como a criança se comportou em casa no dia a dia, como foi o acompanhamento dos estudos, o que evoluiu, o que pode ser diferente, como a escola pode ajudar. Os pais leram com as crianças? Acompanharam os deveres de casa? Como a escola poderia se comunicar melhor com eles?

Há outras reflexões que podemos fazer: o que os pais aprenderam sobre os filhos? As crianças estão aprendendo a estudar sozinhas? Se a resposta for não, cabe-nos ajudar a desenvolver a autonomia dos alunos.

Sabemos da importância de alfabetizar logo no primeiro ano. Então, cabe também perguntar: os filhos já sabem ler? Sabem usar os livros? Sabem usar internet? Do que eles mais sentiram e sentem falta em relação à escola? Como os pais e os professores podem ajudar nisso?

São exemplos de questões que podem alimentar o diálogo. O mais importante é escutar os pais, deixá-los desabafar. Com isso, a conversa entre a escola e a família fluirá melhor. É preciso ter abertura de espírito. Não é só cumprir tabela. Se há 30 pais, vamos ligar para os 30 pais. Também não é só ligar. É ligar e saber ouvir. Preparar o ouvido, o coração, a cabeça. Precisamos incorporar os pais no cotidiano da escola”.

Crianças

“Além dos professores e pais, precisamos também ouvir as crianças. Todos nós somos resilientes. Essa palavra significa a capacidade de adaptação e flexibilidade para lidar com situações extremas. Uns são mais resilientes do que outros, mas todos estamos de alguma forma testando nossa resiliência nessa pandemia. As crianças são mais frágeis do que nós. Então, são mais resilientes. Dão mais vazão aos sentimentos, são mais espontâneas e conseguem lidar melhor com a realidade. Nós, adultos, racionalizamos muito.

O que é importante nessa acolhida das crianças? Primeiro, é a disposição de querer ouvi-las. Há crianças que estão indo pela primeira vez à escola. Há as que não sabem se passaram de ano, quem será o professor.

É preciso se dispor a ouvi-las sobre suas experiências nessa pandemia. Como elas têm se organizado? Têm horário para estudar? Têm acesso a telefone, à internet, à televisão? Precisamos ver também como estão os sentimentos delas. Como estão lidando com eles? E os relacionamentos em casa, na escola, com amigos?

Quais são as expectativas das crianças para este ano? Todos nós temos expectativa de voltar à vida normal. Precisamos saber, por exemplo, quais são as expectativas das crianças em relação à vacina. Ouvir e engajá-las nesse processo.

As conversas podem ser individuais ou em pequenos grupos. O que importa é criar ambientes e espaços para ouvir, criar atividades que estimulem as crianças a se expressar. De novo: não devemos começar o ano como se fosse um ano normal. Não devemos começar com mais do mesmo.

Quem vai ter aula presencial ou semipresencial pode usar a própria escola. Quem continuar à distância pode promover essas conversas de várias outras formas. O que importa é nos abrirmos para ouvir, nos abrirmos para criar um novo espaço de ensinar, uma nova forma de atuar”.

Evasão

“Aproveito essa oportunidade para fazer uma recomendação muito especial aos secretários, diretores e professores: sabemos pelo estudo de outras situações de interrupção das aulas presenciais nas escolas que haverá uma tendência de evasão. E é o mesmo grupo de sempre – os que já faltavam as aulas, os que estavam no fim de um ciclo e desanimaram, alunos de famílias mais carentes que precisarão ganhar algum trocado e terão dificuldade de retornar.

Nesse momento especial em que vivemos, é fundamental essa busca ativa. Que a falta de internet não seja uma desculpa para a não participação do aluno. Ele pode buscar os deveres na escola, os municípios podem fazer mutirões para entregar e buscar os deveres na casa dele. Essa busca ativa deve ser feita com o espírito do pastor da ovelha perdida. Só descansar quando achá-la.

A escola só promoverá a igualdade com uma ação efetiva. Além do incentivo direto, há outros mecanismos institucionais que ajudam, como, por exemplo, o Bolsa Família. Na medida em que instituir um controle de frequência, seja no ensino à distância, híbrido ou presencial, a escola pode informar os gestores do Bolsa Família e tentar garantir a presença das crianças”.

Instituto Alfa e Beto na pandemia

“Nós, do Instituto Alfa e Beto, tivemos uma experiência bem diferente. O fato de termos o ensino estruturado facilitou muito a relação com os municípios que já implementavam nossos programas.

Observamos diferentes ações entre municípios, entre escolas e também dentro das escolas. Houve município que fez tudo que estava previsto e ainda acrescentou algumas coisas para enriquecer o acompanhamento dos alunos. No outro extremo, infelizmente houve os que não fizeram nada. No meio do caminho, houve os que fizeram coisas mais ou menos eficazes. Cada um sabe de si. Em breve, os frutos desses diferentes níveis de esforço serão colhidos.

Tivemos uma experiência particular que foi o Alfa e Beto na TV. Em outubro de 2020 o programa foi ao ar na Rede Vida Educação e na internet, e desde então tem sido uma experiência fascinante que nos permite uma forma diferente de contato com as famílias.

Para os municípios que já usavam nossos programas, o Alfa e Beto na TV foi um algo a mais. No final do ano passado, dois municípios que não usavam os nossos programas aderiram ao Alfa e Beto na TV. Eles não tinham qualquer ideia a respeito de ensino estruturado ou método fônico. Nos acompanhamentos que fizemos para verificar como o programa estava sendo absorvido, o que mais me impressionou foi a grande participação das famílias, foi ver como a educação dos filhos é prioritária para elas.

Fizemos enquetes por telefone com centenas de pais e mães. Mais de 70% das mães estavam vendo o Alfa e Beto na TV junto com os filhos. Isso é um muito importante. A pandemia nos permitiu criar novas realidades pedagógicas que não existiam. Temos trabalhado nisso e procurado avaliar e estender os benefícios dessas experiências.

Os professores em particular – e não apenas os professores de alfabetização – podem encontrar no Alfa e Beto na TV modelos importantes de como deve ser uma boa aula, como deve ser a interação com as crianças, como escutá-las, como acolhê-las, como lidar com erros, como apresentar uma tarefa, como discutir sobre um texto que será lido ou sobre uma redação que será feita. Recomendo que eles olhem o programa – umas três aulas – com os olhos de quem está vendo como dar uma boa aula. É raro um professor ter a oportunidade de ver outro professor ensinando crianças, e no Alfa e Beto na TV há essa oportunidade.

As pesquisas que fizemos indicam mudanças de comportamento dos pais. Eles estão vendo o quanto podem e devem fazer para acompanhar a vida escolar das crianças. Estão mais cientes do que acontece na escola, do que esperar, do que cobrar. Em alguns municípios, os pais não conheciam nem o caderno de caligrafia. Percebemos que eles estão começando a ter critérios mais rigorosos e fundamentados para o diálogo com a escola.

Pais, professores, diretores e secretários de educação, todos estão convidados a conhecer e tirar o máximo de proveito do Alfa e Beto na TV”.

Instituto Alfa e Beto em 2021

“Para concluir, gostaria de dar uma breve notícia sobre os nossos programas este ano. Em 2020, estivemos presentes com o Alfa e Beto na TV, com aulas de Língua Portuguesa (Alfabetização) e Matemática de 1º ano. Em 2021, vamos oferecer pela Rede Vida e YouTube programas para o Pré 1 e Pré 2.

Vamos fazer programas de 50 minutos por dia para o pré 1 e 50 minutos por dia para o pré 2 divididos em duas etapas, acompanhando os nossos materiais.

Em março, vamos reprisar o Alfa e Beto na TV e começar a oferecer também os nossos programas de ensino estruturado de língua portuguesa e matemática.

Ao se engajar em uma dessas modalidades, é importante dar orientações claras para todos sobre como deve ser realizado o acompanhamento dos alunos. Distribuir os materiais, conversar com os pais e, onde for possível, também fazer uma avaliação diagnóstica para tomar o pulso dos alunos, saber onde estão, de que cuidados especiais precisam”.