João Batista Oliveira fala de perdas, possíveis ganhos e principais lições da educação na pandemia

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Educação na pandemia

O fechamento temporário das escolas por causa da pandemia do novo coronavírus trouxe perdas na aprendizagem em todo o Brasil. Por outro lado, os alunos desenvolveram mais autonomia e as famílias passaram a valorizar mais a escola.

Em novo vídeo postado no canal de YouTube do Instituto Alfa e Beto, o professor João Batista Oliveira, presidente da instituição, analisa as perdas e possíveis ganhos da educação ao longo da pandemia.

Ele também comenta quais são as principais lições que professores, escolas e redes de ensino podem tirar desse cenário. O principal ensinamento, segundo ele, é a necessidade de se utilizar novas ferramentas e práticas, e não apostar no que estava sendo feito até agora sem sucesso.

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Ao comentar sobre os prejuízos, o especialista destaca que os principais revezes se deram em função da perda de hábitos, rotina, atenção e memória, devido à ansiedade. “Podemos perder conhecimentos e motivações para aprender quando há uma interrupção muito grande das aulas”, diz.

Essas perdas, segundo ele, são maiores nas camadas mais pobres e vulneráveis da população, que já apresentavam uma defasagem educacional maior e que recebem um atendimento menos satisfatório. Outro grupo mais prejudicado é o dos jovens em risco de deserção.

Os ganhos na educação durante a pandemia

Em seguida, o presidente do Instituto Alfa e Beto destaca alguns ganhos observados no período. Para ele, os alunos aprenderam a ser mais autônomos e resilientes. As famílias, por sua vez, passaram a assumir mais responsabilidades e a ajudar mais os filhos nos estudos.

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Para lidar com o ensino à distância, os professores tiveram maior contato com as famílias e aprenderam a dominar ferramentas tecnológicas. Outro aspecto positivo é que a população em geral deve passar a valorizar ainda mais a escola – e não só como espaço para aquisição de conhecimentos.

As lições da pandemia para a educação

O professor João Batista Oliveira conclui sua fala dizendo que as perdas não são irrecuperáveis. Cabe aos profissionais da educação “fazer as coisas de maneira diferente” para que se alcance um bom nível de aprendizagem até o final do ano que vem.

“Se fizermos tudo igual ao que fazíamos no passado não vamos chegar a lugar algum. Esta é a primeira e mais importante lição dessa pandemia”, ressalta.

Para o especialista, o maior desafio das redes de ensino é recuperar as perdas com “novos instrumentos, novos métodos, novas técnicas e novas formas de refletir sobre a educação”. Os municípios, segundo ele, devem estar preparados para a eventualidade de novos eventos capazes de voltar a fechar as escolas.

“Ainda há municípios esperando um milagre que venha de Brasília ou do governo do estado ou de alguma ONG, como se não fossem deles – de cada professor, cada escola, cada diretor, enfim, de cada município – a responsabilidade de tomar as medidas necessárias para reabrir as escolas e recuperar o tempo perdido, com novas ideias, com novos instrumentos e com muita competência”, completa.

Assista ao vídeo abaixo:

Abaixo, segue a íntegra do vídeo:

. Neste vídeo, fazemos um balanço das perdas e danos da pandemia. Vamos falar também das principais lições.

. Perdemos em hábitos, em rotina, em atenção, em memória, por causa da ansiedade. Em situações como a desta pandemia, podemos perder também conhecimentos e motivações para aprender.

. A experiência mostra que, efetivamente, quando há uma interrupção muito grande das aulas, há alguma perda. Não tanto no sentido de o aluno esquecer, perder aquilo que aprendeu, e sim o que parou de aprender, parou de evoluir. Então, a perda é em relação ao que deveria saber, ter aprendido. Em matemática, às vezes há perdas específicas de conhecimentos, de regras, de habilidades que se vão, mas isso se recupera com o tempo. No entanto, o mais importante são as perdas mais gerais, principalmente de hábitos.

. Os grupos sociais mais pobres, mais vulneráveis, devem ficar com uma defasagem maior, porque já tinham antes e também porque têm um atendimento menos satisfatório. Outro grupo que deve ter perdido mais é o dos jovens em risco de deserção. Ou seja, aqueles grupos que sempre estiveram em risco possivelmente terão mais perdas e podem, inclusive, não voltar para a escola. Muitos jovens que estão terminando o ensino fundamental podem falar: “poxa, perdi tanto tempo, compensa voltar para a escola?”. Ou os alunos do ensino médio, que estão concluindo essa etapa e vão entrar em um mercado de trabalho bastante difícil, bastante tumultuado.

. Então, há, sim, perdas, mas as perdas que dependem da escola podem e devem ser recuperadas – e em tempo rápido. Nos países desenvolvidos, a expectativa é de que, no final de 2022, as coisas já estejam em ordem.

. Mas, vamos falar dos possíveis ganhos nessa pandemia. Em primeiro lugar, é o ganho dos indivíduos, dos alunos, que aprenderam a ter mais autonomia, mais resiliência, mais paciência, e que estão mais preparados, portanto, para enfrentar os desafios da vida em geral e do estudo em particular.

. As famílias assumiram suas responsabilidades, ajudaram os filhos em casa, passaram a ter um relacionamento melhor com a escola e a reconhecer mais o trabalho dos professores e diretores. Puderam conhecer e entender as dificuldades e desafios desse trabalho.

. Os professores aprenderam muito sobre o uso de novas habilidades e tecnologias exigidas pelo ensino remoto. Aprenderam também sobre como lidar melhor com as famílias, como dar apoio emocional aos alunos em um período tão difícil.

. As escolas, hoje, certamente são muito mais valorizadas pela população, inclusive por aspectos que vão além do ensino. Cabe a elas capitalizar essa boa vontade para ter um relacionamento ainda melhor, daqui para frente, com as famílias.

. Por fim, que lições podemos tirar dessa pandemia? Em primeiro lugar, não há nada irrecuperável, não há nada que não se possa fazer, com muito profissionalismo, para que cheguemos a um bom nível até o final do ano que vem. Mas, para isso, é importante que façamos as coisas de maneira diferente. Se fizermos igualzinho ao que vínhamos fazendo no passado, não vamos chegar a lugar nenhum. Na melhor das hipóteses, vamos voltar à mediocridade que era antes – e era muito medíocre.

. O tempo de recuperação vai depender muito de cada um, e isso vale para o aluno, a escola e a rede de ensino. O que se espera é que, com a aprendizagem que tivemos, com os desafios que encaramos, consigamos recuperar as perdas até o final do ano que vem, com novos instrumentos, novos métodos, novas técnicas, novas formas de refletir sobre a educação.

. Outra lição importante é: estamos preparados para outra pandemia? Estamos preparados para uma nova situação de confinamento que nos obrigue a ter de fechar as escolas de novo?

. Infelizmente, temo que não. A essa altura, ainda vemos municípios esperando um milagre que venha de Brasília ou do Governo do Estado, ou de alguma ONG. Esperando que alguma coisa aconteça, como se não fosse de responsabilidade deles – de cada professor, cada escola, cada diretor, cada município – tomar as medidas necessárias para reabrir as escolas e recuperar o tempo perdido, com novas ideias, com novos instrumentos e sobretudo com muita competência.