É preciso falar sobre os perigos das telas para nossas crianças

O grande perdedor com o uso indiscriminado de tablets e celulares é a capacidade de atenção, concentração, reflexão e sociabilidade das crianças

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tecnologia na educação

Para quem preza os próprios filhos e os filhos dos outros, torna-se imperativa a leitura do livro “A fábrica de cretinos digitais – os perigos das telas para nossas crianças”, de Michel Desmurget. Publicado em francês em 2019, o livro está disponível agora também em Português.

Estamos emburrecendo como indivíduos e como sociedade. As evidências são sólidas, e o livro, volumoso, trata delas. A mensagem é simples e clara: há evidências robustas de que as “telinhas” fazem mais mal do que bem. Os males são vários e afetam as crianças e jovens de maneira diferente, de acordo com a idade. Colocar celulares e tablets à disposição de crianças pequenas é o equivalente tecnológico a lhes fornecer veneno e limitar o seu potencial intelectual. É de pequenino que se torce o pepino. Os danos diminuem pouco com a idade.

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As recomendações também são simples, claras e consistentes com o que vêm orientando as principais sociedades científicas que se ocupam da saúde das crianças: ZERO de exposição para crianças até dois anos. Pouquíssimo até os seis – nunca mais de 20 minutos por vez e nunca sozinhos. E nunca mais de uma ou duas horas por dia, até pelo menos os 80 anos de idade. Estamos falando aqui de vários aspectos da telinha: filmes, desenhos animados, joguinhos e grande parte de programas supostamente educativos.

A recomendação é radical. Como convém a qualquer produto tóxico.

As evidências apresentadas não são novas, mas são robustas e muito bem alinhavadas, sempre com competência, muitas vezes com humor e, por vezes, com mal humor e até compreensível sarcasmo. Não se trata de um livro científico – é um livro escrito por um cientista, baseado em robustas evidências científicas, mas que se preocupa com a sanidade mental da sociedade. O autor resmunga e vocifera diante de tanta complacência por parte dos que deveriam ser mais rigorosos, ao avaliar resultados de pesquisas. Lembra o Grilo Falante do Pinóquio. Você se lembra do que acontece com ele na história? Pois é…

Há muito que se poderia comentar sobre o livro – inclusive a competente revisão que faz do fracasso de todas as tentativas de universalizar o acesso dos escolares a tablets e coisas do gênero: os custos são óbvios e elevados, ao passo que os resultados, pouco ou nada convincentes. Como em toda inovação educacional, alguns recursos podem ajudar se forem bem usados por bons professores – quase sempre melhorando quem já está melhor…

O livro contém alertas para pais, professores e responsáveis pela formulação de políticas públicas relacionadas ao tema. Não endossa a euforia – que vemos no Brasil – sobre os potenciais milagres do 5G, muito menos sobre seu potencial impacto para reduzir as disparidades educacionais. O grande perdedor com o uso indiscriminado da telinha é a capacidade de atenção, concentração, reflexão e sociabilidade das crianças e jovens, o que compromete o desenvolvimento da inteligência – dos indivíduos e dos países. O mal exemplo dos pais que não desgrudam do celular já está demonstrando seu custo. A falta de atenção e concentração das crianças e jovens já está cobrando a fatura nos testes escolares – há tempos os empregadores sabem o que se passa no mundo dos adultos.

Trata-se de leitura obrigatória. Há limites para o que podemos ignorar. Não há mais razão para ignorar as evidências científicas sobre o impacto limitado e os estragos potencialmente devastadores do uso indiscriminado das tecnologias. Isso vale para as famílias e para as escolas. Quem tiver argumentos contrários, baseados em rigorosas evidências, deve apresentá-los, com a mesma competência que o faz Michel Desmurget.

Texto originalmente publicado no blog Educação em Evidência, na Veja.