Visão política pode ter mais influência sobre atitudes preventivas em relação à COVID-19 do que o conhecimento das pessoas acerca dos números da doença, sugere estudo

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Como as pessoas compreendem dados numéricos sobre a pandemia de COVID-19 e como isto se relaciona com suas atitudes em relação à doença? Estas perguntas constituem o objeto de um estudo realizado por pesquisadores de diversas universidades e instituições, dentre eles a pesquisadora Isabella Starling Alves, do Instituto Alfa e Beto. 

O trabalho intitulado “Numeracy and COVID-19: examining interrelationships between numeracy, health numeracy and behaviour”, aceito para publicação na prestigiosa revista Royal Society Open Science, ganhou o segundo maior prêmio da XI Reunião Anual do IBNeC – Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento, e do I Fórum Nacional de Ligas Acadêmicas em Neurociências, eventos realizados recentemente. 

Resultados – Os resultados preliminares indicam que participantes com melhor desempenho nas tarefas de habilidades numéricas básicas tiveram melhor desempenho nos problemas matemáticos aplicados à COVID-19 (por exemplo, entender gráficos sobre COVID-19, comparar número de casos entre países etc.). Porém, o desempenho dos participantes nestas tarefas não teve relação com suas atitudes quanto à doença. 

Estamos analisando mais os dados, mas parece que a visão política das pessoas tem sido o principal preditor das atitudes preventivas em relação à COVID-19. Os dados sugerem que as habilidades numéricas básicas auxiliam a compreensão de dados sobre COVID-19, mas não são suficientes para afetar as atitudes da população”, diz Isabella. 

Sobre o estudo – Estudos anteriores haviam mostrado que a compreensão matemática dos indivíduos de informações relacionadas à saúde afeta suas atitudes e comportamentos. Como a pandemia COVID-19 expôs pessoas em todo o mundo a grandes quantidades de dados estatísticos, pesquisadores resolveram investigar a relação entre a) compreensão matemática básica (ou “numeracia” básica), b) compreensão matemática específica dos números divulgados (ou “numeracia” sobre COVID-19) e c) atitudes e comportamentos relacionados à COVID-19. 

Com o avanço da COVID-19 e o anúncio da pandemia, fomos bombardeados por informações numéricas. Termos como crescimento exponencial e achatar a curva tornaram-se presenças diárias na mídia, além de números de grande magnitude numérica (na casa dos milhares e milhões). Estas informações foram apresentadas pela mídia com o objetivo de informar a população e também encorajá-la a adotar medidas de prevenção”, explica a pesquisadora. 

Metodologia – Foi realizada uma pesquisa on-line com 2032 adultos do Canadá, Estados Unidos e Reino Unido a fim de medir as três variáveis citadas. Os países foram escolhidos por falarem a mesma língua, terem um nível de desenvolvimento social semelhante e terem diferentes percursos durante a pandemia. 

O questionário respondido pelos participantes abordava: 1) características demográficas (sexo, idade, escolaridade, nível socioeconômico etc.); 2) habilidades numéricas básicas (por exemplo, indicar onde um número se encontra em uma linha numérica de 0 a 1000 e responder perguntas sobre conceitos matemáticos etc.); 3) problemas matemáticos aplicados à COVID-19 (por exemplo, entender gráficos de crescimento exponencial, comparar proporções de casos de COVID-19 entre países etc.); e 4) atitudes em relação à COVID-19 (como lavar as mãos, usar máscaras, adotar distanciamento social etc.). 

Ainda sobre os resultados – A expectativa dos pesquisadores era que a matemática básica, a matemática da COVID-19 e as atitudes e comportamentos relacionados à saúde do COVID-19 estivessem positivamente correlacionados entre si, mas isso não foi confirmado pelos resultados dos questionários. 

Eles também observaram que pessoas dos Estados Unidos tiverem pior desempenho nas tarefas numéricas do que pessoas do Reino Unido e do Canadá. Além disso, pessoas do Canadá adotaram mais medidas de prevenção quanto à COVID-19 do que pessoas dos Estados Unidos e do Reino Unido. 

Isabella Starling Alves, pesquisadora do Instituto Alfa e Beto.