Quem precisa dos russos?

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Na semana anterior, testemunhamos o início da invasão da Ucrânia pela Rússia. Na mesma semana, chegaram às escolas os livros didáticos para o “novo” ensino médio. Conforme reportagem publicada no jornal O Globo, no dia 25 de fevereiro, professores de História reclamaram não apenas do atraso na entrega, mas da estrutura dos livros: os assuntos se encontram apresentados sem uma estrutura, sequência ou seriação. Tudo consistente com as novas orientações da BNCC e da nova Lei do Ensino Médio. Quem precisa de russos para destruir uma nação?

Voltemos à guerra. Ao vivo e a cores, assistimos a mais uma crônica de morte anunciada, com todos os horrores de guerra, matança de civis e crianças, desrespeito pelos princípios mais elementares de civilização, da civilidade e da convivência – para não dizer das leis internacionais. Nada muito diferente de lutas que se sucedem desde pelo menos os tempos de Caim e Abel. Ou que não tenham sido prenunciadas pela tradição oral e registradas em fábulas como as do Lobo e o Cordeiro. Assistimos – alguns perplexos – aos rituais que asseguram a lentidão das reuniões de “emergência” da ONU e as limitações dos instrumentos da diplomacia convencional diante de fatos consumados. Até aqui, estamos diante de fatos – dá para acompanhar.

A Ucrânia está caindo. Caiu Hong Kong. Taiwan está tremendo nas bases. A Coreia do Sul deve estar de orelha em pé e olhos fixos nos testes de mísseis de seu incômodo vizinho do Norte. Aumentam os riscos e vicissitudes de viver num mundo multipolar. Dá para entender igual? E se acrescentarmos à informação algo como Holodomor ou os herdeiros da KGB?

Isso requer o conhecimento da História. Sem um conhecimento minimamente adequado da História, fica difícil compreender minimamente o que está acontecendo, como o presente se liga ao passado, em geral e no particular. E aqui estamos tratando de eventos relativamente recentes, menos de um século se passou entre Holodomor, o cerco em que Stalin matou de fome milhões de ucranianos, a 2ª Guerra Mundial, a Guerra Fria, o fim da Guerra Fria e os novos cenários com diferentes potências estabelecendo os limites de suas respectivas tribos.

Para compreender a informação, o passado, o presente e as tramas e rodeios da História, não basta a capacidade de acessar informações. A história se estuda de maneira sincrônica e diacrônica – pela sequência de eventos e suas relações ou pela sequência de eventos que se repetem ao longo do tempo. O 5G e o metaverso não substituem o conhecimento. Conhecimento não consiste em juntar de qualquer maneira um conjunto de fatos. Ele resulta da capacidade de fazer relações cada vez mais complexas entre conjuntos cada mais amplos de fatos, usando conceitos cada vez mais elaborados. E, para isso, precisamos de bons mestres para nos ajudar a não perder o fio da meada.

E aqui caímos nos desafios do ensino da História, na elaboração de currículos, livros didáticos e de referência. Para encurtar uma longa história: os livros didáticos do ensino médio que agora chegam às escolas decorrem de duas recentes legislações na política educacional brasileira. A primeira é a BNCC – os currículos nacionais. A outra é a lei do “novo ensino médio”. E, em cima de tudo isso, os livros ainda têm que passar pelo crivo do PNLD – um complexo sistema de “controle de qualidade” que tem de tudo um pouco, menos garantia de qualidade. E tudo isso, claro, incendiado pelas lutas ideológicas que tornaram o ensino da História refém do desconstrucionismo pós-moderno, que, de resto, não passa de uma página repaginada do funcionalismo marxista. Deu para entender? Mas, para tratar dessas questões, é preciso entender.

De novo: para entender é preciso estudar. Não basta “fazer um clique no Google”. Ou mergulhar no desconhecido universo do metaverso. Aprender a compreender e relacionar fatos históricos leva tempo. Dá trabalho. Exige esforço e competência.

E aqui voltamos ao império da lei. Tudo o que está acontecendo com os currículos e livros didáticos é fruto de lei e normas excessivas e inadequadas. A lei do ensino médio e a BNCC foram aprovadas com elevado grau de “consenso” e aclamadas com plumas e paetês como a salvação da lavoura. E é exatamente o excesso de leis e de consenso – calcado numa radical aversão ao debate e ao contraditório – que está contribuindo para piorar o que já não é tão bom. E as leis da aprendizagem… essas, coitadas, não têm direito a voto nem voz. Uma breve visita, por exemplo, aos currículos de História da França – as do ensino acadêmico e as do ensino profissional – dará ao leitor uma ideia do fosso que nos separa dos países onde a educação vai direitinho.

A Lei do Ensino Médio – ao se recusar a lidar de maneira adequada com a especificidade do ensino médio profissional, com currículos e dinâmica própria – estabelece um currículo do tipo “geleia geral” para todos os alunos durante as primeiras 1.600 horas do ensino médio. Não tem como dar certo. Os livros didáticos já vinham sendo progressivamente submetidos a um arsenal de normas e exigências que, além de assegurar que são politicamente corretos, castram qualquer possibilidade de autoria e consistência. Agora, para piorar, refletem ainda as orientações da BNCC e da nova Lei do Ensino médio.

Deu para entender? Há países como a Ucrânia que são destruídos pelos seus inimigos – às vezes, seus próprios vizinhos. Aqui não precisamos nada disso. Os russos somos nós.

Texto original publicado na coluna Congresso em Foco (UOL) do professor João Batista Oliveira