O que o Itamaraty pode ensinar para o MEC

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MEC

O anúncio do concurso para diplomatas lista as disciplinas que serão avaliadas: Língua Portuguesa, Língua Inglesa, História do Brasil, História Mundial, Política Internacional, Geografia, Economia, Direito. Nas fases seguintes, haverá ainda provas adicionais dessas disciplinas, além de Língua Espanhola e Língua Francesa.

Por que tanta exigência? Por que tantos “conteúdos”? E por que o Itamaraty não avalia “competências” em vez de conteúdos?

Por uma razão muito simples: o Itamaraty sabe o que faz. Não parecer ser o caso da turma que cuida da educação.

O Itamaraty sabe daquilo que precisa um diplomata preparado para servir ao Brasil.  Precisa de pessoas capazes de se comunicar em diferentes línguas, que dominem pelo menos uma ou duas delas, e tenha apreciação para possíveis nuanças ao usar tradutores.  História do Brasil e Mundial. É preciso saber. Datas relevantes, fatos, sua sequência no tempo. A relação entre os fatos dentro de um país e entre países: conhecimento sincrônico e diacrônico, ambos são necessários, relevantes e complementares. Para entender e dialogar com o presente, é preciso conhecer o passado. Posso entrar na internet hoje e aprender um pouco sobre a Crimeia, Ucrânia ou Rússia.

O diplomata que não conhece a história da Rússia e a origem desses povos, a história da Europa (antes chamada de Christendom – que poderia ser traduzido como Território da Cristandade) – e coisas do gênero não terá substrato para qualquer diálogo profícuo.  Conhecer história requer a capacidade de armazenar e articular um conjunto imenso de fatos, datas e informações, de um lado. E requer enormes capacidades cognitivas para relacioná-los de forma inteligente – geografia e economia ajudam muito. E é preciso um excepcional domínio verbal para articular esses conhecimentos para conversar e negociar.

Conteúdos, conteúdos, conteúdos – são a base para desenvolver habilidades. E não se trata de repeti-los de memória, trata-se de articulá-los e processá-los de forma inteligente para compreender, interpretar e argumentar. Essas são as habilidades cognitivas, mas que só operam no concreto e exigem quantidades enormes de conhecimento específico aprendidos de maneira articulada.

E por aí vai. Há argumentos para justificar que nossos diplomatas saibam geografia, da mesma forma que o “waze” não nos dispensa de conhecer o caminho para onde vamos, pois a bateria do celular pode acabar ou o sinal pode falhar. Diplomatas não possuem esse privilégio. Não há espaço para “péra aí que vou ver na internet onde fica esse país” ou quem veio antes, o código de Hamurabi ou a Carta Magna.

Ademais, o Itamaraty sabe que precisa de gente inteligente, capaz de autossuperação, de se concentrar, de esforço para aprender a articular tantos informações e conhecimentos de diferentes disciplinas (isso mesmo, disciplinas). Creio que não preciso continuar, o leitor já percebeu o fulcro do argumento.

Conteúdo é a base para qualquer conhecimento. Relacionamos fatos conhecidos – é impossível relacionar o que desconhecemos. Os especialistas acumulam milhares de fatos e incidentes sobre as áreas de sua de especialidade, não são generalistas em “habilidades genéricas”. É por isso que se diz que se levam 10 anos ou 10 mil horas de experiência para ser um especialista em qualquer coisa. Nem todos precisam saber tudo que um diplomata precisa saber e articular: são especialistas em generalidades, é verdade, mas com base suficiente para isso.

As pessoas que criticam o conteudismo – e no Brasil são legião – precisam se educar e respeitar a ciência. Precisam saber o que significa a palavra “disciplina” e suas origens (dica: Platão). Precisam entender por que, durante séculos, as pessoas cultas que contribuíram para desenvolver as bases da civilização ocidental (em extinção) estudavam o Trivium e o Quadrivium. Sim, Trivium e Quadrívium são currículos que existem desde antes de Cristo, com conteúdos, estrutura e sequência bem especificados. E precisam saber que dominar conteúdos (que pejorativa e equivocadamente denominam de “conteudismo) não se confunde com provas que exigem apenas a memorização de fatos ou fórmulas. Conteúdo é a matéria prima.

Aqui cabe outra distinção relevante: dominar a fundo o conteúdo de uma disciplina é essencial para permitir o conhecimento. A educação não é uma ciência, mas há conhecimentos científicos sólidos sobre vários aspectos da educação que merecem ser conhecidos e respeitados por parte de quem elabora leis ou toma decisões. Sabemos que habilidades cognitivas complexas – especialmente relacionadas com leitura, matemática e ciências – estão associadas ao desenvolvimento de estruturas cognitivas que operam em bloco e com limites bem estabelecidos sobre a amplitude e especificidade a que se aplicam. E é isso que nos permite generalizar dentro dos domínios que efetivamente “dominamos”.

Existem leis da ciência da aprendizagem que não constituem tema para amadores – muito menos para “pareceres”, leis do Congresso Nacional ou consensos obtidos em assembleias gerais.

O desafio da educação consiste em delimitar as disciplinas que os alunos precisam dominar, e o grau em que isso é necessário. No Brasil – e especialmente no ensino médio –, somos vítimas do “enciclopedismo”: obrigar todos os alunos a cursar várias disciplinas e a seguir uma extravagante trilha comum. Enciclopedismo – ou seja, exigir conhecimentos de um grande número de disciplinas – nada tem a ver com o domínio adequado de conhecimentos de algumas disciplinas.

O que os países desenvolvidos fazem, em seu ensino médio, é permitir ao aluno concentrar-se em poucas disciplinas. É isso que a lei da reforma do ensino médio deveria ter feito, mas não fez. E com base na tosca lei da reforma do ensino médio, as novas propostas para o ENEM pioram o que começou torto. E vão piorando na medida em que as grandes decisões da educação são tomadas por pessoas desprovidas do conhecimento necessário para tal.

Costuma-se usar o Pisa para justificar a abolição do “conteudismo” e entronizar as “habilidades”. Ledo engano. Quem se der ao trabalho de observar as reformas curriculares ocorridas na maioria dos países da OCDE nos últimos 20 anos, e motivadas pelo desempenho no Pisa, poderá observar que em todos eles, sem exceção, os currículos são apresentados na forma de disciplinas, com estrutura e sequência lógica.   E fizeram isso exatamente porque compreendem que, para se sair bem no Pisa – e num curso rigoroso de ensino superior –, é necessário conhecer a fundo as disciplinas e saber raciocinar em níveis cada vez mais aprofundados com base nelas.

Fica o convite – que os candidatos a educadores e os que se revestem ocasionalmente da função de conselheiros meditem sobre a sabedoria do Itamaraty. E que os candidatos a Presidente e Governador escolham melhor os seus interlocutores para tratar dos assuntos da educação – na qual, de resto, reside o futuro do país.

Texto original publicado na coluna Congresso em Foco (UOL), do professor João Batista Oliveira.