Perda de aprendizagem ou atraso escolar devido à pandemia?

72
aulas suspensas

Na próxima sexta-feira, dia 6 de maio, às 10h, por meio de uma live, o Instituto Alfa e Beto apresentará resultados de uma pesquisa sobre o tema do momento: qual foi o real impacto da pandemia na aprendizagem das crianças? Houve perdas? Atraso? Qual a diferença? E o que fazer?

A pesquisa é única no gênero, pois se baseia, em parte, em dados obtidos com os mesmos alunos, antes e depois da pandemia. O foco é alfabetização, compreensão de leitura e fluência da leitura em crianças. Foi realizada em Sobral, município que sabidamente faz um trabalho de excelente qualidade na educação, em geral, e na alfabetização, em particular. A pesquisa foi implementada em colaboração com o município, sob a responsabilidade de pesquisadores do Instituto Alfa e Beto e do Instituto IDados. Trata-se de assunto da mais alta relevância para a educação em todo o país, daí porque o tratamos neste espaço.

Perda ou atraso escolar? Perda significa que o aluno perdeu o que havia adquirido antes. É possível que haja perdas, mas é o menos comum. E, quando há, geralmente são perdas fáceis de recuperar. Por exemplo, podemos esquecer a tabuada, o nome dos órgãos do corpo humano ou algumas regras de gramática. Ou ficar mais lentos para fazer uma cópia ou um ditado. Mas é difícil “perder” conhecimento – nossa experiência de vida nos mostra que aprendemos muito mais depois que saímos da escola.

A falta da escola causou sobretudo atraso escolar, ou seja, hoje um aluno está dois anos mais velho do que no início da pandemia, mas seu nível de conhecimento é equivalente a um aluno de uma ou mais séries anteriores.

O que aprendemos com esta pesquisa?

Primeiro, alfabetização: os alunos que estão no 2º ano em 2022 não estão alfabetizados. Mas os alunos que estão no 3º ano em 2022 foram alfabetizados e obtiveram notas semelhantes aos alunos do 2º ano antes da pandemia. Ou seja, o que normalmente Sobral fazia bem-feito, antes da pandemia, agora precisou fazer em dois anos. Mas o importante é que conseguiu.

Segundo, comparando o desempenho dos alunos do 5º ano em 2022 com alunos do 5º ano em 2020, em compreensão de leitura, houve atraso de um ano, ou seja, os alunos do 5º ano em 2022 sabiam o que sabiam os alunos do 4º ano na mesma época. Dois anos sem ensino presencial, um ano de atraso em relação ao que era obtido anteriormente. Note-se que estamos falando de um município em que o nível de aprendizagem é elevado. Dito de outra forma: os esforços do município conseguiram reduzir a perdas a um ano. Isso se refere à leitura e compreensão. E estamos falando de habilidades de compreensão, ou seja, a capacidade de ler e compreender uma frase, complementando com a palavra correta que falta para lhe dar sentido.

Terceiro, o estudo também avaliou o desempenho dos alunos em fluência de leitura: ler rápido, com poucos erros e boa prosódia. Fluência de leitura depende de prática – é como andar de bicicleta ou digitar. Em Sobral, também houve perda de fluência de leitura. Mas os dados são interessantes. Quanto mais avançada a série antes da pandemia, menor o atraso da turma de 2022 em relação às turmas respectivas de 2019. Ou seja: quem tinha menos avançou menos, quem tinha mais avançou mais.

Este experimento nos deixa muitas lições. A mais importante delas é que devemos evitar o termo “perda” de aprendizagem, pois ele é enganador. Atraso escolar é o termo mais adequado. Segundo, o atraso vai depender de onde o aluno estava antes da pandemia. Terceiro, o tamanho do atraso depende do ponto de partida e do que ocorreu durante a pandemia – não é algo inexorável. E a lição mais importante, sobretudo para os que advogam atrasar a alfabetização dos alunos para além do final do 1º ano: atrasar a alfabetização é uma punição que leva consequências para o resto da escolaridade.

Sobral fez – como sempre – o seu dever de casa. Promoveu o diagnóstico dos alunos, usando instrumentos precisos e adequados. Feito o diagnóstico, está implementando as medidas corretivas.

Para recuperar o atraso da pandemia, não é preciso esperar por milagres nem por uma improvável iniciativa do MEC ou dos governos estaduais. Quem quer e sabe faz. Quem não quer e não sabe reclama. Ou procura culpados. Ou continua a ignorar as evidências científicas.

Texto original publicado na coluna Congresso em Foco (UOL), do professor João Batista Oliveira.