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Entrevista: ‘Boletim busca traduzir dados sobre professores para o público geral’, diz pesquisadora do IDados

No dia 26 de abril, o IDados, instituição associada ao Instituto Alfa e Beto dedicada à análise de dados e de evidências sobre a educação, lançou o Boletim IDados da Educação N.3. Nesta edição, a publicação traça um perfil dos futuros professores do Brasil.

A partir de dados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE), o Boletim mostra uma situação complicada: o nível de conhecimentos gerais dos alunos de Pedagogia e Licenciatura nessas provas tem sido baixo ao longo dos últimos anos. Além disso, compara o resultado dos alunos nesses cursos com formandos de Engenharia.

O Boletim IDados da Educação N.3 mostra que os alunos de Pedagogia são recrutados entre aqueles com as piores notas no Ensino Médio. Em Cingapura, país que foi destaque do nosso X Seminário Internacional na última segunda-feira, o governo procura atrair os 30% melhores alunos do Ensino Médio para o magistério, garantindo um grupo docente de alta qualidade.

O Blog Alfa e Beto entrevistou Talita Silva Mereb, pesquisadora do IDados responsável pelo Boletim Perfil dos Futuros Professores, para falar sobre os resultados desse estudo. Confira a seguir os principais destaques da conversa:

Como foi a escolha dos dados do Boletim? Por que o tema foi escolhido?

A relevância do tema foi um dos motivadores. A gente quis investigar o perfil dos futuros professores, saber como se formam essas pessoas que tem um papel tão importante na nossa sociedade. Quanto aos dados, o ENADE foi nosso principal banco de dados. Ele é um exame feito há mais de dez anos e tem um questionário socioeconômico bastante rico, de onde tiramos as informações que compõem o Boletim. O ENADE atualmente entrevista os alunos concluintes do Ensino Superior e se tornou um exame censitário, e nós usamos porque queríamos saber o perfil do aluno concluinte de Pedagogia e Licenciatura. Para comparar com dados dos ingressantes, pegamos uma amostra do ENEM. É importante notar que com a expansão do ENEM, os dados dos ingressantes, que antes era obtido pelo ENADE, passaram a ser obtidos pelo ENEM, mudando a fonte de dados. Certamente uma questão de economia de custos nas provas, já que a maioria das universidades já usa o ENEM como forma de seleção.

Com relação ao perfil socioeconômico dos alunos, o que chamou mais a atenção dos envolvidos na pesquisa?

A baixa escolaridade da mãe dos estudantes de Pedagogia e a baixa renda familiar foi o que mais chamou a atenção. O alto número de mulheres nessa área também se destacou, mas era um dado que esperávamos de certa forma – ainda assim, as porcentagens são bem altas. Os dados desde 2005 até agora mostram que 70% dos alunos de Pedagogia têm mães que só estudaram até a 4ª série [atual 5º ano]. É uma escolaridade baixa. A renda familiar tem um aumento no número de alunos com renda de até três salários mínimos. Em 2014, 80% dos concluintes de Pedagogia tinham essa faixa de renda. É uma representatividade muito alta.

Por que o Boletim comparou dados de Engenharia com cursos de Pedagogia e Licenciaturas?

Queríamos comparar os resultados dos alunos de Pedagogia e Licenciaturas com o resultado de alunos de um curso que tivesse boa representação no mercado de trabalho e também tivesse destaque social. A Engenharia é um curso que oferece isso. O piso salarial da Engenharia é em torno de R$ 6 mil reais. Será que os concluintes dos cursos de Pedagogia e Licenciatura são parecidos com os concluintes de um curso com esse perfil, que vai ter um status social alto? Ou serão diferentes? A gente queria investigar isso. Engenharia é interessante também porque ele é avaliado no ENADE no mesmo ano do curso de Pedagogia e das Licenciaturas, então conseguimos comparar o desempenho dos alunos na prova de conhecimentos gerais, que é a mesma para todos os estudantes que fazem o ENADE. Se eles fizessem em anos diferentes, a comparação seria mais complicada, pois o questionário seria diferente.

A maioria dos alunos tanto de Engenharia quanto de Pedagogia e Licenciatura obtiveram uma média de acerto na prova de conhecimentos gerais de cerca de 50%. São resultados considerados muito baixos para a prova de conhecimentos gerais?

Os resultados mostram que os alunos brasileiros na média não estão apresentando uma nota alta na prova de conhecimentos gerais. Essas provas avaliam os conhecimentos gerais do aluno sobre o que está acontecendo na política, na economia, são assuntos gerais sobre o Brasil, sobre o mundo e sobre cultura. Há um problema se pensarmos que esses concluintes talvez não estejam acompanhando muito o que está acontecendo ao redor dele. Esses resultados mostram que podemos ter jovens profissionais com resultado talvez medíocre em relação ao que eles deveriam demonstrar sobre o que está acontecendo no Brasil, no ambiente internacional e na história. O ideal é que tenhamos profissionais com boa noção do todo. Mas também é bom ponderar que esse é um tipo de prova na qual não se pode medir muito a motivação do aluno para responde-la. Pode ser que ele tenha baixo desempenho porque respondeu sem prestar atenção ou não terminou a prova. Nós excluímos dos dados aqueles que deixaram tudo em branco, mas há aqueles que só respondem até uma certa parte, o que pode ser tanto por falta de tempo quanto porque a pessoa quis ir embora no tempo mínimo, por exemplo. Ou simplesmente pode ter respondido tudo sem saber nada e tirou zero.

Qual o principal efeito dos dados expostos no Boletim IDados para a Educação no Brasil?

A principal contribuição desse Boletim é tentar traduzir a realidade da docência para o público geral, mostrar as estatísticas e os números mostram. O perfil dos futuros professores é esse que retratamos. O objetivo é informar para mais gente o que a comunidade acadêmica já vem estudando há tempos. O público geral por vezes não tem tanto acesso e o Boletim tem uma mensagem mais acessível para falar sobre o tema. O baixo desempenho dos estudantes nos exames que avaliamos mostra que a gente tem uma situação que precisa melhorar, precisamos melhorar a seleção desses professores.

Baixe o Boletim IDados da Educação N.3 e leia em seu computador ou celular.

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