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Habilidades socioemocionais: nem só de QI vive o homem | Capítulo 20

Este post faz parte de uma série produzida pelo Instituto Alfa e Beto que irá desvendar em 20 capítulos a inteligência. Todas as segundas-feiras são publicados novos artigos neste espaço. Clique aqui e veja todos os posts já publicados. Para ver o índice completo da série, clique aqui.

Todos conhecemos pessoas extremamente inteligentes – alguns até mesmo gênios – que também são pessoas extraordinárias em várias outras dimensões da atividade humana. Mas também conhecemos pessoas talentosas que são intragáveis, arrogantes, mesquinhas, perdulárias, impacientes, rudes ou simplesmente mal-educadas.

Conhecemos também pessoas não tão inteligentes, mas que apresentam essas mesmas características. Conhecemos ainda pessoas com um nível normal de inteligência – ou mesmo limitado –, e que são pessoas fabulosas, dotadas de enormes virtudes ou “habilidades sociais”.

Há ainda aqueles com níveis médios de inteligência e de habilidades socioemocionais, e que também se dão bem nas várias dimensões da vida.

Portanto, aqui se trata da busca de um equilíbrio. Mas até aí, não há nada novo. A novidade entra – especialmente quando se fala de inteligência – quando as habilidades socioemocionais se tornam muito mais importantes para as novas formas de trabalho características da economia do conhecimento: a colaboração, o trabalho em equipe, o compartilhamento de ideias, os olhares múltiplos, tudo isso se torna essencial para a qualidade e produtividade do trabalho.
Se um grupo é composto por pessoas de elevadas habilidades socioemocionais, mas com baixa calibragem cognitiva, os resultados são medíocres. Mas se as pessoas altamente bem dotadas cognitivamente não sabem colaborar, os resultados podem ser desastrosos. Isso significa que habilidades socioemocionais não substituem a importância de cultivar os talentos e a inteligência. Mas também significa que só talento e inteligência nativa não ajudam o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade.

Ao tratarmos do tema inteligência nunca podemos perder de vista o papel das escolas. No passado, as escolas eram vistas tanto como instituições de ensino quanto instituições voltadas para a formação do caráter – termo que se relaciona, de certa forma, com o conceito de habilidades socioemocionais. A secularização do ensino retirou essa “cobrança” das escolas, que se viram cada vez mais voltadas para a formação acadêmica, tendo como norma o critério meritocrático, simbolizado pelo boletim, notas e resultados em testes externos à escola. O tema da “inclusão”, especialmente de alunos com dificuldades, colocou em questão o critério meritocrático, e ainda hoje muitas escolas e sistemas escolares se debatem sobre o assunto. Uma tendência é excluir os resultados dos alunos “especiais” das notas em exames acadêmicos.

Embora as escolas tenham cada vez mais dificuldade em lidar com os desafios de natureza acadêmica, esta continua sendo a sua missão principal, reconhecida por todos e cobrada pela maioria – inclusive pelos governos, na forma de testes padronizados.

Não resta dúvida de que habilidades socioemocionais são essenciais para a sobrevivência da espécie e a adaptação dos indivíduos. A base dessas habilidades se estabelece nos anos iniciais de vida, mas os mecanismos neurológicos que as regem possuem mais “plasticidade” do que os mecanismos associados ao desenvolvimento cognitivo. Por isso é possível, mesmo em idades mais avançadas – e, especialmente na juventude – corrigir, fortalecer ou desenvolver habilidades socioemocionais. Clubes, grupos de apoio, igrejas e tantos outros mecanismos extraescolares sempre contribuíram com o desenvolvimento dessas habilidades. O sistema de mestre-aprendiz e outros mecanismos de formação profissional também são particularmente apropriados para desenvolver e reforçá-las.

Este é um assunto sobre o qual ainda temos pouco conhecimento, e o sucesso de intervenções maciças em ambientes escolares ainda é muito limitado. Isso se deve ao pouco conhecimento que temos sobre essas habilidades e à estrutura da escola – com diferentes programas, diferentes professores e uma dificuldade cada vez maior de estabelecer e implementar consensos, valores e critérios comuns de comportamento. Ou seja: estamos diante de um desafio em que essas habilidades são cada vez mais necessárias, mas as condições para desenvolvê-las vêm se tornando cada vez mais desafiadoras.

Este foi o último texto desta série sobre o QI e o desenvolvimento da inteligência, que reuniu 20 textos destacando as principais evidências sobre o tema. 

Se você acompanhou estes textos e deseja saber mais, recomendamos a leitura da bibliografia indicada em cada um dos 20 textos. Convidamos os leitores a debater os tópicos apontados ao longo da série e tirar dúvidas adicionais através dos comentários.

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