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Não se aprende a escrever (só) escrevendo: ensino da escrita é desafio mesmo para países com bom desempenho em educação

Quais as evidências sobre estratégias eficazes de ensino de escrita? Existem estratégias ineficazes? Quais seriam, e por que são ineficazes?

O bom ensino da escrita se traduz em alunos que sabem expressar de forma adequada suas ideias por meio do texto escrito. Não se trata de uma tarefa trivial e pressupõe professores muito bem preparados para o ensino.

Ao contrário do que se pode imaginar, esse é um desafio inclusive para países com bom desempenho em educação. É o que indica o professor e pesquisador da Universidade de Londres, Roger Beard, uma das maiores referências no mundo quando o assunto é o ensino da língua. Beard virá ao Brasil em agosto, para o VIII Seminário Internacional do Instituto Alfa e Beto, que terá como tema central o Ensino da Língua e a Formação de Professores. Entre os temas abordados no encontro estão o ensino da escrita, da gramática e da compressão da leitura.

De acordo com Beard, o Reino Unido vem revendo seus currículos para promover de forma mais contundente o aprendizado da escrita de seus alunos. “Notou-se que, embora os padrões de leitura tenham aumentado, os padrões de escrita não aumentaram no mesmo caminho, talvez porque não tenha sido dada tanta atenção ao uso de estratégias eficientes de ensino de escrita”, conta o especialista.

No Brasil, o desafio é ainda maior. De acordo com dados da Prova ABC, cerca de 46,6% das crianças deixam o 3º ano do Ensino Fundamental sem dominar as habilidades básicas de escritas previstas no exame. Mas, afinal, como reverter esse quadro?

A resposta passa, obviamente, pela formação dos professores, que precisam estar consonantes com as melhores práticas no ensino da escrita. Beard dá pistas. “Acredito que a conquista é a escrita contínua quando feita com regularidade. Um trabalho que tem se destacado nessa área está sendo realizado de maneira parecida tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, com destaque às pesquisas do professor Steve Graham, nos EUA. Basicamente, ele se baseia em mostrar exemplos às crianças, ajudando-as a criar módulos mentais do texto, para entender especificamente as articulações entre as palavras e focando particularmente em textos relacionados ao mundo real, com contextos evidentes e, também, textos instrumentais para a vida cotidiana”, explica.

Nós conversamos com Roger Beard a respeito de esses e outros temas que estarão em debate no VIII Seminário Internacional e o resultado desta entrevista está sendo publicado em partes neste espaço. A quinta e última parte desta conversa você confere a seguir (as demais partes estão disponíveis aqui):

Quais as evidências sobre estratégias eficazes de ensino de escrita? Existem estratégias ineficazes? Quais seriam, e por que são ineficazes?

Eu não tenho certeza se existem quaisquer abordagens ineficazes no caso do ensino da escrita porque, o fato de estar na escola realizando tarefas do dia a dia parece ajudar as crianças, na maioria dos casos, a fazer algum desenvolvimento nesse sentido. Então, eu não acho que existem estratégias ineficazes, apenas pelo fato de estar na escola escrevendo regularmente e com algum suporte. Eu acredito que a conquista é a escrita contínua quando feita com regularidade. Um trabalho que tem se destacado nessa área está sendo realizado de maneira parecida tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, com destaque às pesquisas do professor Steve Graham, nos EUA. Basicamente, ele se baseia em mostrar exemplos às crianças, ajudando-as a criar módulos mentais do texto, para entender especificamente as articulações entre as palavras e focando particularmente em textos relacionados ao mundo real, com contextos evidentes e, também, textos instrumentais para a vida cotidiana. Um grande número de crianças falha ao realizar esse tipo de técnica de escrita, quer por não conseguir moldá-lo ou imitá-lo, quer porque não o fez com o apoio de professores. Mas, em seguida, na primeira fase as crianças tentam de forma independente para escrever um texto e são capaz de aprender. O impacto desse tipo de autorregulação foi detectado em uma grande revisão das pesquisas sobre o tema.

Parece óbvio que existe uma relação entre a leitura e a escrita. Ambas envolvem compreensão e conhecimentos de gramática. Como projetar um currículo para incorporar tudo o que precisa ser aprendido?

O Reino Unido tem uma história nesse sentido que ajudou a questionar os padrões de alfabetização e ensino da língua no início dos anos 90 e que vem sendo abordada agora em revisões e pesquisas. Notou-se que, embora os padrões de leitura tenham aumentado, os padrões de escrita não aumentaram no mesmo caminho, talvez porque não tenha sido dada tanta atenção ao uso de estratégias eficientes de ensino de escrita. Apesar de o problema já ter sido notado, medidas reparadoras ainda não foram integradas ao currículo no Reino Unido e estão em nível de pesquisa, mas certamente o tema vem recebendo mais destaque agora do que em anos anteriores. Eu acredito que as estratégias de ensino focam, de modo geral, apenas na leitura, e a escrita não recebe o mesmo tipo de atenção. O mesmo é verdadeiro nos Estados, onde o professor Graham tem frisado a importância de dar mais atenção ao ensino de escrita. Estou animado para levar algumas novidades sobre esse tópico para o Brasil em agosto.

Em todo o mundo, linguagem e matemática estão presentes em praticamente todos os anos da escola ao longo da escolaridade. Por que se leva tanto tempo para aprender uma língua nativa?

Eu acho que muito disso está ligado a condições familiares, ao ambiente em que as crianças passam seu tempo, porque eu acredito que podemos aprender com quem nós passamos mais tempo. A menos que tenhamos uma boa mistura social nas nossas comunidades e dentro de nossas escolas, nós não poderemos aprender uns com os outros, de forma a desenvolver uma consciência mais crítica e sensível às características do entorno cultural mais amplo onde as pessoas vivem. É necessário um longo caminho para passar às crianças experiências para que possam ser utilizadas em seu mundo de fantasia, o mundo em que elas se relacionem com outras comunidades.

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