Como melhorar a educação

Nota do Instituto Alfa e Beto:
Este artigo foi publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia

Melhorar a educação é um gigantesco desafio. Mesmo diante de tanta informação disponível, de tantos especialistas prontos para dar ou vender conselhos, e com o gigantesco crescimento dos recursos públicos para a educação – não tem havido avanços significativos no setor. Os avanços são lentos, pontuais e nem sempre continuados, inclusive devido à falta de consensos básicos entre os educadores, aos desafios do gerenciamento no setor público e à descontinuidade administrativa.

Daí a necessidade de identificar com precisão onde estão ocorrendo avanços e aprender a alavancar mudanças a partir desses pontos de inflexão. Nesse sentido merece análise a iniciativa da rede municipal de educação de Salvador de implementar uma estratégia de ensino estruturado.

A rigor, todo bom ensino é estruturado – o que varia é o grau de estruturação e o nível em que isso ocorre. O nível pode ser o do professor, da escola ou de um sistema ou rede de ensino. O grau se refere ao nível de detalhamento das orientações.

Por exemplo, estudos realizados junto a professores extremamente eficazes mostram que eles elaboram planos e preparam as aulas com grande detalhamento. Também indicam que, independentemente da disciplina e do nível de ensino, professores de alto desempenho utilizam estratégias bastante parecidas para estruturar o seu trabalho e para gerenciar a aprendizagem dos alunos. No outro extremo, as evidências mostram que o detalhamento das atividades para os alunos em materiais de alta qualidade pode contribuir para melhorar significativamente o desempenho de alunos e professores, especialmente em sistemas com baixos níveis de resultados acadêmicos.

A implementação de uma proposta de ensino estruturado na rede municipal de Salvador em 2013 começou a provocar importantes mudanças nas formas de pensar, planejar, supervisionar e fazer acontecer a educação nas salas de aula. Foram aprendizagens importantes.

Ressaltamos cinco reflexões que parecem mais importantes para orientar os próximos passos.

1º. É essencial ter um currículo para referenciar qualquer decisão – seja a escolha de livros e materiais didáticos, avaliação ou para saber o que cada professor deve ensinar a cada ano. O próximo passo consiste em estabelecer o que seja um bom currículo e implementar um currículo rigoroso, elaborado por especialistas e que reflita o estado-da-arte.

2º. Saber o que cada professor deve ensinar a cada ano ajuda a escola a cumprir sua missão. A implementação, em 2013, de um programa de revisão de conteúdos de anos anteriores levou muitas escolas discutir internamente sobre as responsabilidades de cada professor: se o aluno não aprende o que precisa aprender na série devida, o professor das séries seguintes terá sua responsabilidade aumentada. Ter um programa de ensino permite à escola e aos professores dialogar sobre a responsabilidade de cada um.

3º. Nunca é tarde para aprender – um aluno pode ser alfabetizado ou aprender as operações fundamentais no quarto ou quinto ano. Mas o prejuízo para esse aluno é irrecuperável – seu futuro educacional fica comprometido. Faz muita diferença para o aluno aprender o que precisa aprender no tempo certo, na idade certa.

4º. Reprovar alunos, especialmente reprovar maciçamente, ajuda pouco quando o nível de qualidade do ensino ainda é baixo. Contingentes significativos de alunos, reprovados ou não, podem chegar ao 5o ano sem saber ler ou sem ter os rudimentos de matemática. Não há substituto para um bom ensino.

5º. Pedagogia e gestão andam juntas. Não é possível melhorar a educação apenas com boa pedagogia, essa deve vir acompanhada de instrumentos eficazes de gestão. Mas instrumentos não têm vida, quem lhes dá vida são os gestores – o professor que gerencia a aprendizagem dos alunos, os coordenadores e diretores que gerenciam as atividades dos professores e a Secretaria e suas regionais, que gerenciam a atividade das escolas. A gestão profissional e eficiente é indispensável para a educação avançar, mas só é eficiente quando focada nos problemas centrais do ensino e da aprendizagem – e não em correr atrás de ineficiências no funcionamento da infraestrutura.

O ensino estruturado vem possibilitando o melhor entendimento dessas questões e, na medida em que contar com um gerenciamento cada vez mais eficaz, poderá produzir resultados – como se observa em algumas outras redes de ensino que vêm trilhando esses caminhos.

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