Novos alertas da neurociência para a importância da caligrafia

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Novos alertas da neurociência para a importância da caligrafia

A pandemia poderá contribuir para um gigantesco avanço em educação se as pessoas que militam no ramo levarem a sério as contribuições da ciência para o ensino. Estudo recente publicado na revista Nature em 26 de março de 2021 traz à luz o relegado tema da caligrafia.

Comecemos pelos fatos: o ensino da caligrafia sumiu das escolas. Em novembro de 2020, ao implementar um programa de alfabetização pela TV num município mineiro relativamente próspero, as famílias receberam materiais didáticos que incluíam atividades sistemáticas e cadernos de caligrafia. Nunca haviam visto aquilo – nem como alunos nem como pais. As crianças, naturalmente, se encantaram. E é assim em todo o Brasil.

A caligrafia foi abolida das escolas brasileiras, junto com muitas boas ideias e práticas que faziam e ainda fazem sentido. Ela foi abolida no bojo de um conjunto de ideias equivocadas sobre a função da escola e do ensino. Assim, nossos educadores foram levados a confundir escrever com redigir, a considerar a caligrafia como um ato “mecânico” e, portanto, indigno de ser ensinado. Nessa perspectiva, as letras e o alfabeto constituiriam uma barreira ao entendimento do sentido “global” do texto. Mas, no ensino médio, onde o princípio da realidade vem resistindo ao princípio do prazer, o Enem obriga os alunos a fazer redação à mão, e quem tem prática com letra cursiva se sai melhor.

A importância da caligrafia, especialmente o domínio da letra cursiva, tem a ver com eficiência: a escrita cursiva dá mais velocidade ao registro, pois o lápis não sai do papel. Ela permite a escrita fluente e, uma vez automatizada, permite que o cérebro cuide de outros assuntos, como a ortografia e, em seguida, o sentido das palavras e a escolha das palavras, no caso de uma redação. Mas a escrita cursiva também tem a ver com a ortografia – a recorrência de movimentos contínuos contribui para fixar a forma ortográfica das palavras no cérebro. Tudo isso já é sabido há séculos e confirmado há décadas.

Recente estudo publicado na revista Nature em 26 de março de 2021 (“High-performance brain-to-text communication via handwriting“) revela o impacto da caligrafia no cérebro. O estudo documenta o desenvolvimento de um instrumento que permite restaurar a comunicação de pessoas que perderam sua capacidade de falar ou mover-se. O novo equipamento foi desenvolvido com base numa interface cérebro-computador que decodifica a atividade mental correlata à tentativa mental de escrever. A complexidade de movimentos envolvidos ao mentalizar a escrita cursiva é captada no cérebro. Como ela é muito maior do que na escrita de letras de forma, isso facilita a aprendizagem da máquina, tornando-a muito mais eficaz do que suas antecessoras. O estudo comprova o que já se sabe: o cérebro aprendeu a ler e a escrever e desenvolveu mecanismos especializados. Esses mecanismos, por sua vez, nos tornaram capazes de novas proezas. Um detalhe importante: se o indivíduo lesionado dominar apenas a escrita da letra de forma ou a digitação não conseguirá fazer o aparelho interpretar seu esforço de escrita.

Durante a pandemia, o Brasil se dividiu em várias dimensões. Em educação, há os que se especializaram em identificar perdas, lamentar a falta de universalização do 5G e a denunciar a proverbial inépcia dos governantes. E há os que se dedicaram a promover ganhos de aprendizagem. A tão desprezada e tão necessária caligrafia é uma das múltiplas habilidades que precisam e podem ser ensinadas e desenvolvidas, inclusive no meio desse pandemônio. E inclusive pode ser ensinada à distância – com a colaboração da família e o uso de materiais e protocolos adequados.

(Texto originalmente postado pelo professor João Batista Oliveira no blog Educação em Evidência, na Veja)