Pré-escola é uma escola antes da escola?

Três artigos* publicados recentemente reforçam um mal estar crescente em vários países: a escola está tomando o lugar da infância. E isso é muito ruim. No Brasil, maternal, creche e jardim de infância viraram “Educação Infantil”. Para muitos, pré-escola é uma escola que vem antes da outra, com carteiras enfileiradas e, em alguns lugares, até avaliações externas dos alunos.

O assunto é complexo e merece ser analisado pelos pais e debatido pela sociedade. De um lado há os fatos, que valem para todas as crianças e todos os países: hoje sabemos mais sobre como as crianças se desenvolvem, sabemos que as crianças podem aprender muito desde os primeiros anos de vida e também sabemos que as exigências que uma criança enfrenta no 1° ano do Ensino Fundamental são muito maiores do que antigamente. Sabemos também que o ambiente onde cresce a criança, especialmente a família, afeta profundamente suas chances de sucesso na escola e na vida, e que a linguagem é um dos elementos-chave na transmissão da pobreza.

Por paradoxal que possa parecer, também sabemos que a formação de hábitos de leitura nas crianças desde o berço, o desenvolvimento de estratégias de autocontrole e a experiência de crianças com instituições que oferecem currículos rigorosos e bem implementados fazem enorme diferença nas suas vidas, especialmente na vida de crianças oriundas de condições familiares e socioeconômicas mais desfavorecidas.

Isso sugere que a Educação Infantil deva ser igual a escola? Ou que a pré-escola deve ser uma escola que vem antes da outra?

Tudo indica que a resposta correta é NÃO. A criança de 0 a 6 anos (período conhecido como Primeira Infância) precisa aprender muito e desde cedo. Mas isso não significa que deva aprender num contexto igual ao contexto escolar. Muito ao contrário. O contexto da escola formal pressupõe algo que as crianças ainda não possuem – o desenvolvimento de habilidades de autocontrole, habilidades interpessoais, capacidade de atenção continuada e especialmente a capacidade de abstração – necessária para absorver os conteúdos típicos de um programa de alfabetização ou para aprender operações matemáticas.

Como conciliar a necessidade de tanta aprendizagem com a ideia de que Educação Infantil não deve ser escolar? A resposta se encontra no próprio processo de desenvolvimento, na forma de aprender da criança. A forma privilegiada da criança aprender é brincando. Mas brincar por brincar não é suficiente. Seja em casa, com a babá, cuidadores ou em instituições de Educação Infantil, a criança precisa brincar enfrentando estímulos e desafios compatíveis com o seu nível de desenvolvimento e capazes de estimulá-la a ir além.

Nessa forma de entendimento, o “currículo” da Educação Infantil se confunde com as expectativas do processo de desenvolvimento ao longo dos 6 primeiros anos de vida. O currículo da Educação Infantil – seja ela feita pelos pais, babás, cuidadores ou professores – consiste em apresentar oportunidades e situações adequados ao nível de desenvolvimento da criança, mas ao mesmo tempo capazes de estimular e desafiar a criança a se auto superar. A forma de apresentar esses desafios deve ser eminentemente lúdica – pois a criança aprende brincando. E tudo isso, claro, só tem bons efeitos num ambiente estável, previsível, seguro, carregado de afeto e de profunda confiança mútua.

Pré-escola não é e não deve ser uma escola antes da outra. Também não é brincar de escola. Educação Infantil é assunto sério, não é brincadeira de criança.

*Os artigos mencionados no início do texto são:

Amy Claessens, Mimi Engel e Chris Curran Academic Content, Student Learning, and the Persistence of Preschool Effects. AERA Journal, 2014.

Mimi Engel, Amy Claessens e Maida Finch. Teaching Students What They Already Know? The (mis)alignment between mathematics instructional content and student knowledge in kindergarten. ICHHD, 2012

Daphna Bassok e Anna Rorem. Is kindergarten the New First Grade? The changing nature of kindergarten in the age of accountability. EdPolicyWorks, Universidade da Virginia, 2014

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