Pandemia e os impactos positivos da leitura em voz alta

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Um dos poucos estudos no mundo realizados durante a pandemia de Covid-19 traz dados importantes sobre o impacto de intervenções realizadas em famílias com crianças pequenas e pré-escolares, mesmo para pais com baixo nível de alfabetização. Esse estudo foi realizado pelo Instituto Alfa e Beto em parceria com pesquisadores da Universidade de Nova York e publicado na revista norte-americana de alto prestígio acadêmico “Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics”. A pesquisa e o estudo foram realizados no município de Arcoverde, em Pernambuco, e mostraram que programas bem-estruturados de estímulo à leitura desde a gravidez até a primeira infância têm impactos positivos no desenvolvimento cognitivo das crianças, além de contribuir para a interação entre pais e filhos. O estudo apresentou que ocorreram efeitos positivos mesmo em famílias de baixa renda e com baixo nível de alfabetização. O foco do projeto foi analisar o impacto do programa Universidade do Bebê (UBB) em famílias com gestantes e mães com bebês e crianças pequenas menores de 24 meses. O UBB consiste em emprestar livros a famílias de baixa renda e promover oficinas mensais focadas na leitura em voz alta com os pais para incentivá-los e capacitá-los a ler de maneira interativa com seus filhos. O programa foi implementado pelo Instituto Alfa e Beto em Arcoverde (PE), onde quase metade da população vive em situação de pobreza. As mulheres de baixa renda selecionadas de forma randômica para participar da pesquisa estavam grávidas ou com filhos de 0 a 24 meses. Elas foram avaliadas no início do programa e, aproximadamente 11 meses depois, sobre a parentalidade – estimulação cognitiva, crenças sobre leitura precoce, tempo de tela e disciplina – e desenvolvimento infantil. Os resultados mostraram um índice de maior estimulação cognitiva e consciência sobre a importância da leitura precoce, sem diferenças no nível de alfabetização dos pais. Além disso, nas famílias com baixo nível de alfabetização, o programa Universidade do Bebê foi associado à redução do tempo de tela e ao aumento do vocabulário dos pais participantes. Já os efeitos nas crianças foram mediados pela estimulação cognitiva e demonstraram com sucesso a importância da implementação de programas de leitura em voz alta a partir da gravidez e da primeira infância. Para saber mais, acesse o estudo completo aqui

Presidente do Instituto Alfa e Beto comenta os resultados da Prova Brasil

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  Os primeiros resultados surpreendem quando comparados com diagnósticos realizados por diferentes instituições. “Os resultados precisam ser avaliados com cautela, especialmente tendo em vista que as taxas de participação foram muito baixas”, comenta o professor João Batista, Presidente do Instituto Alfa e Beto.   O quadro abaixo sintetiza os resultados do Saeb  
  Língua Portuguesa Matemática
  Nota Diferença em relação aos dados 2019 Nota Diferença em relação aos dados 2019
2º ano 725,5 24,5 741 -9
Séries iniciais 208 -7 217 -11
Séries finais 258 -2 256 -7
Ensino médio 275 -3 270 -7
  O que mais chama atenção:  
  • Exceto no 2º ano, o nível de perdas ficou bem abaixo do que seria de se esperar – e com base no que ocorreu em vários países. O resultado também é surpreendente quando comparado com avaliações diagnósticas realizadas por diferentes instituições – inclusive o SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), para a rede pública de São Paulo e pelo Instituto Alfa e Beto (em diversos municípios).
  • A diferença de pontos no 2º ano é importante. Mas a média talvez não reflita o mais grave: aumentou sensivelmente a quantidade de alunos nos níveis mais baixos da escola. A diferença menor em Matemática possivelmente se explica pelo tipo de questão que não exige leitura e captura apenas o domínio dos conhecimentos mais básicos.
  • Nas demais séries, a pouca diferença possivelmente reflete a taxa de participação. Embora a taxa de participação de municípios e escolas tenha sido elevada, a taxa de participação de alunos foi bastante reduzida, conforme mostrado abaixo. A hipótese mais plausível é que os alunos mais fracos não tenham participado, o que enviesaria os resultados. Essa dúvida poderá ser analisada de forma mais clara quando os microdados estiverem disponíveis.
Taxa de participação de alunos:
    • 76% na pré-escola;
    • 73% nas séries iniciais;
    • 73% nas séries finais;
    • 61% no ensino médio.
  • A aplicação do teste em 2021 deixou clara a inadequação do Ideb como indicador: houve municípios que pioraram a nota e aumentaram o Ideb por conta da aprovação automática. O que vale são as notas da Prova Brasil.
Primeiras reflexões:
  • É inegável o mérito da realização da Prova Brasil em 2021. O MEC e o Inep resistiram às pressões para não aplicar o teste, mas tomaram a decisão acertada.
  • Não há razão para comemorar. Se efetivamente o atraso escolar foi menor do que o esperado – o que ainda precisa ser melhor entendido –, cabe entender que isso se refere a um nível anterior que já era muito baixo.
  • Testes diagnósticos realizados pelo Instituto Alfa e Beto em diversos municípios sugerem que as lacunas de aprendizagem são graves, em todas as séries e disciplinas.
  • Há problemas graves de alfabetização – os alunos estão com proficiência mínima, o que significa que há um enorme contingente de alunos não alfabetizados ainda ao final do 2º ano.
  • A queda maior se deu nos anos iniciais – exatamente o período no qual houve maior avanço. Isso sugere um desafio ainda maior na recuperação do que deixou de ser aprendido.
  • As diferenças entre Unidades Federativas não apresentam novidades – os estados do Centro-sul continuam nas melhores posições –, mas não houve diferenças marcantes entre estados mais ou menos desenvolvidos. Isso pode refletir, em grande parte, a condição socioeconômica relativamente melhor das famílias nos estados dessa região – em contraposição aos estados do Norte e Nordeste.
  • Os resultados precisam ser avaliados com cautela, especialmente tendo em vista que as taxas de participação foram muito baixas. Há forte possibilidade de que os alunos em piores condições não tenham comparecido, e isso é especialmente mais relevante nas séries finais e no ensino médio. Somente com os microdados à mão será possível avaliar com maior precisão.
  O que interessa: os próximos passos
  • Primeiro de tudo: alfabetizar os alunos do 1º e do 2º ano – e, possivelmente, também do 3º.
  • Diagnosticar os alunos para identificar o melhor ponto de reinício.
  • Utilizar estratégias de ensino adequadas e de comprovada eficácia.
  • Priorizar tempo para aulas de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. O aluno aprenderá mais se tiver maior exposição a boas aulas dessas disciplinas básicas. Mas também há um limite dentro do que ele consegue aprender a cada ano.
Confira a transmissão da apresentação dos dados do MEC e Inep aqui.