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Blog Alfa e Beto

Entrevista: Régine Kolinsky

rejaneA alfabetização tem idade certa para acontecer. Aos seis anos de idade, período que coincide com o início da educação formal, as crianças em geral possuem todas as condições para serem alfabetizadas de maneira sistemática. E é preciso aproveitar esta janela de oportunidade para que a alfabetização permita à criança avançar adequadamente na escola – e na vida.

No entanto, jovens e adultos que não aprenderam a ler e escrever quando pequenos podem ser alfabetizados com sucesso tardiamente – e do ponto de vista do cérebro, é praticamente a mesma coisa. É o que mostram pesquisas pioneiras conduzidas por Régine Kolinsky, psicóloga, pesquisadora da Universidade Livre de Bruxelas e especialista no assunto. De acordo com Kolinsky, o cérebro de uma pessoa que aprendeu a ler na fase adulta reage da mesma forma que o cérebro de uma criança que aprendeu a ler no início da vida.

Kolinsky apresentou os achados de suas pesquisas na 3a Jornada Internacional da Alfabetização, realizada entre os dias 7 e 8 de agosto, em Natal (RN). Em entrevista concedida em um intervalo no próprio evento, a especialista lembrou que, apesar de ser possível alfabetizar uma pessoa tardiamente, é alto o custo social de não se alfabetizar na idade certa.

Confira os principais trechos da entrevista:

É sabido que a alfabetização altera o cérebro – a senhora disse, em sua palestra, que a alfabetização “refabrica” o cérebro. Isso vale tanto para crianças quanto para adultos? O que acontece com o cérebro dos adultos que aprendem a ler tardiamente?

Foi exatamente isso que buscamos identificar em nossos estudos – se esse processo se dá em adultos como se dá em crianças. E para isso comparamos adultos que ficaram iletrados por razões estritamente socioculturais – nunca frequentaram a escola, com adultos letrados ou que foram alfabetizados na idade adulta e que são do mesmo contexto socioeconômico que os iletrados. O que aconteceu foi que, na maior parte dos casos, foram observadas as mesmas mudanças comportamentais e cerebrais observadas no processo em crianças. Observamos não só a ativação cerebral da área especializada em reconhecer sequências escritas, mas também outros efeitos como, por exemplo, a ativação de áreas da linguagem falada enquanto é feita a leitura de textos. E vice e versa. Isso significa que, ao ouvir palavras sendo lidas, você ativa áreas que em geral são ativadas para a leitura. As pessoas que trabalham na área sempre olharam para os efeitos das capacidades – de memória, visuais – na aprendizagem da leitura. O que nós fizemos foi olhar de forma inversa – os efeitos da aprendizagem da leitura nestas capacidades. E esses efeitos são basicamente os mesmos para adultos e crianças.

Quais as perdas de se alfabetizar uma pessoa tardiamente?

Um adulto pode aprender a ler – não há dúvida quanto a isso. No entanto, ele perdeu anos e anos, e ficou em uma situação cognitiva, digamos, subdesenvolvida. Acho que é ainda pior para o País, porque isso significa que há muita riqueza mental que não está

sendo estimulada e aproveitada. Sem falar do drama individual de uma pessoa que passou anos e anos em trabalhos mal remunerados, em piores condições de vida. Em resumo, a não alfabetização na idade adequada implica uma série de prejuízos e desperdícios tanto para os indivíduos que perdem essa oportunidade quanto para a sociedade em geral.

De que maneira seus trabalhos se encaixam na realidade brasileira?

Estamos tentando convencer as pessoas no Brasil a aproveitarem melhor os conhecimentos científicos que podem ser aplicados à realidade do País na área de alfabetização. O problema é que falta vontade política. Até agora encontramos pessoas de muito boa vontade, mas com menor poder de decisão. É complicado encontrar pessoas ao mesmo tempo capazes e interessadas em implementar uma verdadeira política de alfabetização massiva de adultos. Isso vale para o Brasil e para outros lugares também. Esse é o problema. Que já temos os conhecimentos necessários para fazer essa revolução, não há dúvida. Mas precisaríamos de uma infraestrutura grande por se tratar de um projeto robusto, que exige grande colaboração em vários níveis. Não estou falando de grandes quantidades de dinheiro, mas é um investimento que ninguém quer fazer porque não há interesse verdadeiro pelo problema.

A senhora conhece algum país ou localidade que teve uma experiência bem-sucedida de alfabetização de adultos?

Não conheço nenhuma iniciativa deste tipo no Brasil. Na Tanzânia, sei que houve um esforço grande, mas me parece que ficou nos níveis básicos, sem chegar à alfabetização em níveis mais avançados. Um caso bem-sucedido foi o de Cuba, onde se alcançou um nível de literacia. Mas é um caso em que os níveis de educação de uma forma geral melhoraram bastante.

No Brasil, o problema do analfabetismo adulto continua sem resposta. Há mais de 50 anos as instituições envolvidas com a alfabetização de adultos continuam utilizando os métodos preconizados por Paulo Freire. O que a ciência diz sobre esta metodologia?

Simpatizo com o viés social de Paulo freire. A ideia de conhecimento piramidal é fantástica – você ensina um professor, que ensinará dois, e assim por diante. Há muitos aspectos positivos e generosos. Mas as pessoas esquecem que Paulo Freire não conhecia nada de leitura e dos processos envolvidos na leitura. Aliás, acho que ele nem mesmo pretendia isso. Ele tinha ideias sobre a importância da leitura, mas não tinha propriamente um método. Há um ideal social muito importante no Paulo Freire, mas o problema é que o aspecto técnico do ensino da leitura não corresponde ao conhecimento científico. Não entendo porque não podemos conciliar os mesmos princípios sociais generosos com uma técnica que faça mais sentido para a aprendizagem da leitura. As pessoas entram em debates ideológicos e isso faz mal para todo mundo. Podemos tentar encontrar um caminho que corresponda ao mesmo ideal social usando métodos adequados. Em níveis gerais, as ideias de Paulo Freire são maravilhosas. Mas a técnica é errada. Ele não era um especialista na área. É só mudar esta parte, usar um método mais eficaz, de acordo com os conhecimentos científicos que temos hoje.

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