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Outras inteligências – elas existem mesmo? | Capítulo 4

Este post faz parte de uma série produzida pelo Instituto Alfa e Beto que irá desvendar em 20 capítulos a inteligência. Todas as segundas-feiras são publicados novos artigos neste espaço. Acompanhe! Clique aqui e veja todos os posts já publicados. Para ver o índice completo da série, clique aqui.

Rigor é essencial para qualquer debate e para o progresso científico. Nos posts anteriores usamos uma mesma definição de inteligência – em duas versões. No primeiro texto usamos a definição de Linda S. Gottfredson: “Inteligência é a capacidade de raciocinar, planejar, pensar de maneira abstrata, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender a partir da experiência”. (1997, p.13).

No segundo, usamos a definição do manifesto dos cientistas publicadas no jornal americano The Wall Street Journal: “Inteligência é uma capacidade muito geral que envolve habilidades de raciocínio, planejamento, solução de problemas, pensar de forma abstrata, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender a partir da experiência”.

Portanto, ao falarmos de talentos específicos ou ao usarmos o termo no plural estamos falando de outra coisa, de outro conceito. Por razões diferentes – científicas ou meramente ideológicas ou comerciais – diferentes pesquisadores e também não-pesquisadores propuseram desde o início do século passado a “existência” de outros tipos de inteligência.

As versões mais conhecidas atualmente são a Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, e a “teoria da inteligência emocional”, de Daniel Goleman. O próprio Gardner – diante das reações às suas formulações iniciais – reviu suas posições e retirou da pauta a ideia de inteligências múltiplas. Nenhum artigo científico publicado em revistas de primeira linha cita os trabalhos de Gardner quando trata do tema da inteligência.

Goleman, por sua vez, nunca formalizou uma teoria. Suas propostas são etéreas e muito gerais, e portanto sequer merecem ser examinadas cientificamente. Tanto que seus livros se vendem junto com livros de autoajuda, e não junto a livros científicos.

As ideias propostas por esses autores podem se referir a dimensões ou características relevantes ou encontradas nos indivíduos, mas não se substituem ao conceito de inteligência e sobretudo às suas implicações para o contexto escolar e de desempenho ao longo da vida. Certas habilidades – identificadas como importantes por esses autores – podem ser relevantes, necessárias e mesmo exibidas de forma excepcional por alguns indivíduos, mas não substituem ou suprem aquilo que é assegurado pela inteligência.

Dentre as propostas científicas mais robustas a respeito de outros tipos ou aspectos da inteligência encontram-se as diversas formulações de Sternberg9 que propõe conceitos como os de inteligência prática ou criatividade. Muitos pesquisadores – inclusive o próprio Sternberg – vêm procurando mensurar esses “construtos” ou ideias, mas o que se pode concluir até o momento é que esses “tipos” de inteligência constituem facetas, dimensões ou características dos fatores comumente associados ao conceito clássico de inteligência – e compartilham com ele dos mesmos atributos. Quando usadas em associação com testes de QI, servem para aumentar o seu poder preditivo.

Embora se trate de propostas cientificamente robustas, até o momento elas não conseguiram desafiar o conceito de QI nem alterar o seu entendimento de nenhuma maneira significativa. Ao contrário, pela sua forte correlação com as medidas de QI, elas reforçam o conceito de inteligência compartilhado pela comunidade científica como constituindo o paradigma predominante.

 

Referências bibliográficas:

9: Sobre conceitos de inteligência prática e criatividade ver:

• Sternberg, R.J. (2006) The Rainbow Project: Enhancing the SAT through assessments of analytic, practical, and creative skills. Intelligence, 34, 321-350.
• Sternberg, R.J. (2007). Finding students who are wise, practical and creative. The Chronicle of Higher Education, p B11.

Na próxima semana…

O que a inteligência tem a ver com educação? Por que este é um tema importante para os educadores e para a sociedade?

 

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