Seminário discute novos caminhos para a educação

O que realmente funciona em educação? Qual o melhor currículo para uma escola? Que medidas podem contribuir para o sucesso do professor? De que incentivos os alunos precisam para melhorar o aprendizado? Essas e outras indagações serão mote para debates amanhã e quinta-feira durante o VI Seminário Internacional Educação baseada em evidências, promovido pelo Instituto Alfa e Beto. Voltado para professores, gestores educacionais, pesquisadores e secretários de Educação, o evento acontecerá no auditório do Hotel Golden Tulip, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

O objetivo do seminário é analisar em profundidade o conceito de educação baseada em evidências e os critérios para avaliar a qualidade das evidências. O convidado para falar sobre o assunto é o americano Richard Murnane, doutor em economia e professor da pós-graduação da Escola de Educação da Universidade de Harvard. Nos últimos anos ele analisou os resultados de dezenas de estratégias implementadas nos Estados Unidos e em diversos países em desenvolvimento com o objetivo de melhorar o desempenho escolar das crianças de famílias de baixa renda.

O diretor de redação do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio, será um dos debatedores. Ele participa amanhã à tarde, às 16h30, da sessão que vai abordar os incentivos para professores e alunos e o que dizem as evidências a respeito disso. Também estarão presentes o jornalista Osvaldo Lyra, da Tribuna da Bahia, e o cientista político da Universidade Federal do Piauí Washington Bonfim. A abertura do seminário acontece antes, às 14h. Na quinta-feira, Richard Murnane abordará, a partir das 8h, como avaliar as evidências e a importância dos métodos.

“Educação baseada em evidências, também conhecida pelo nome do que funciona em educação é o nome do jogo. Combinando evidências científicas e empíricas e conhecimentos sobre as melhores práticas é possível aos professores, educadores e gestores tomarem decisões mais bem fundamentadas e com maior chance de produzirem impacto positivo na aprendizagem dos alunos, nos efeitos da escola e no bom uso dos recursos para a educação”, destaca o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Araujo e Oliveira.

Para participar do seminário é preciso enviar e-mail para seminario@alfaebeto.org.br, informando nome, função que desempenha e local de trabalho. A inscrição é gratuita. Restam poucas vagas.

“Importante é ensinar a aprender”, diz pesquisador americano

 Mais recursos para a educação ou programas como o Bolsa Família, que pagam aos pais para as crianças irem a escola, melhoram o ensino público?

Estudos feitos em vários países indicam que pagar aos pais para mandar os filhos à escola aumenta o número de matrículas e melhora a frequência, mas dificilmente melhora o desempenho escolar das crianças, porque as escolas não são boas. Aumentar recursos, seja dinheiro, laboratórios, livros ou computadores, também não melhora a educação, só quando esses são usados para melhorar as práticas de ensino, quando mudam a experiência das crianças em sala de aula.

Então o que é eficiente para melhorar a qualidade do ensino?

É essencial ter um currículo claro, com conteúdos bem definidos sobre o que e como ensinar em cada série. Não tem sentido, em nome da autonomia dos professores, deixar que cada um ensine o que acha melhor, da forma que lhe parece melhor. Em educação, temos que traçar políticas públicas a partir das evidências científicas sobre o que funciona melhor. E há muitas evidências acumuladas. O problema é que em educação os frutos se colhem a longo prazo e os políticos geralmente preferem iniciativas que têm visibilidade imediata. O que realmente importa na educação para desenvolver habilidades cruciais na vida leva tempo para frutificar. Padrões e um currículo claro estão presentes em todos os países que têm alto nível de educação como Singapura, Finlândia e Japão. Isso é essencial porque as famílias se mudam muito, sobretudo as de baixa renda. Mas ainda numa mesma escola, quando cada professor faz como  quer, mudar de série pode ser um transtorno para os alunos com mais dificuldades. Um currículo bem estruturado é fundamental desde a pré-escola para desenvolver habilidades básicas para aprender. Isso é importantíssimo para as crianças pobres que entram na pré-escola já com déficit de desenvolvimento, com vocabulário muito menor.

O que é mais importante para ser um bom professor: bom treinamento ou titulação?

As evidências mostram que a titulação do professor tem pouco ou nenhum impacto sobre o desempenho dos alunos e que o treinamento só melhora o ensino quando está focado nos conteúdos concretos de cada série e em como ensinar. Coisas genéricas não ajudam e às vezes atrapalham quando reduzem o tempo do professor em sala de aula. Além disso, é importante que os professores trabalhem coletivamente. Eles costumam ficar isolados e com portas fechadas porque é difícil ter bom desempenho com salas heterogêneas, muitos alunos defasados e problemas de comportamento. Para melhorar a educação precisamos tornar o ensino uma atividade mais pública, ter escolas onde os professores se encontrem, façam juntos o planejamento, aprendam uns com os outros e se comuniquem com os colegas de outras séries para garantir a continuidade do ensino. A escola eficiente é aquela em que todos os professores se sentem responsáveis por todas as crianças.

Quais são as novas habilidades que a tecnologia tornou essenciais e como ensiná-las?

Os computadores cada vez mais dão conta das tarefas repetitivas. Os trabalhadores precisam ser capazes de ler e discutir com diferentes áreas para aprender, estruturar questões e resolver problemas. Na internet há respostas para qualquer pergunta. É preciso aprender a identificar as que servem. Para isso, é necessário desenvolver vocabulário. As bases para isso estão na alfabetização com o método fônico, porque ele nos possibilita ler palavras novas. O mais importante hoje é ensinar o aluno a ser capaz de aprender permanentemente porque os conhecimentos se tornam obsoletos rapidamente. Para aprender a aprender, o ensino em que o professor fala e a criança ouve não serve mais. É preciso levar os alunos a discutir ideias, ganhar vocabulário e aprender a argumentar. Isso se faz com textos e exercícios coletivos estruturados.

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