Alfabetização adotada no Brasil é questionada por especialistas

Pesquisadores dos processos da mente e do cérebro colocaram em xeque o modelo de alfabetização brasileiro, no VII Seminário Internacional de Alfabetização, realizado nessa quinta-feira (21) pelo Instituto Alfa e Beto (IAB), em Belo Horizonte. O evento debateu o tema “Como saber se o aluno foi alfabetizado” e reuniu mais de 300 pessoas, entre pesquisadores, educadores e gestores públicos.

Os estudiosos mostraram como o método de ensino construtivista é pouco eficiente para a alfabetização. O método, utilizado no Brasil, entende que as crianças aprendem a ler e escrever espontaneamente. No entanto, de acordo com pesquisas recentes, o ensino fônico, que estabelece uma relação entre as letras e os sons, é o mais eficaz. As exposições também mostraram modelos de avaliação de outros países, que podem ser adaptados à realidade brasileira.

Para esclarecer o tema, foram realizadas palestras com pesquisadores da França, Portugal e Itália, e debates com os jornalistas Chico Mendonça, editor-chefe do Jornal Hoje em Dia, e Luciano Máximo, do Valor Econômico.

“No Brasil, há uns 30 anos, a gente perdeu a noção do que é alfabetizar e, com isso, as crianças não estão aprendendo a ler e escrever na escola. O objetivo desse evento é trazer todo o conhecimento de pesquisas do mundo para mostrar como os países definem o que é alfabetizar”, disse o presidente do IAB, João Batista Araújo e Oliveira.

Na parte da manhã, o pesquisador do Laboratório de Ciências Cognitivas e Psicolinguística da Escola Normal Superior de Paris, na França, Frank Ramus, fez palestra sobre os avanços dos estudos na área. “A alfabetização tem muitas habilidades e competências envolvidas”, disse o pesquisador.

À tarde, a professora catedrática da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Portugal, São Luis Castro, destacou os processos de avaliação da alfabetização. “Ser capaz de ler e escrever é um mecanismo neurocognitivo. Por isso, a alfabetização deve ter como base uma avaliação sistemática”, defendeu.

Ultrapassado

O evento contou com a mediação de um dos maiores pesquisadores da área de cognição e psicolinguística, o professor José Morais, da Universidade Livre de Bruxelas. Segundo ele, a alfabetização no Brasil precisa ser remodelada. “Há muitos anos, os programas de alfabetização no Brasil estão dominados por um pensamento anticientífico, que é limitado e não leva em conta todos os trabalhos feitos”, afirmou.

Segundo Morais, a ideia de que uma criança aprende a ler sozinha é ultrapassada. “Nos documentos do MEC é definido que a criança deve aprender lendo. Isso não funciona porque não está de acordo com as características do sistema de escrita. A ideia de que método fônico é mais produtivo do que o normal foi verificada em experimentos”.

Desempenho do Brasil é baixo

O desempenho dos estudantes brasileiros em leitura está abaixo da média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. A avaliação é do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), realizada em 2012.

O país somou 410 pontos em leitura, dois a menos do que na última avaliação. Com isso, ficou com a 55ª posição no ranking de leitura, abaixo de países como Chile, Uruguai, Romênia e Tailândia.

Quase metade dos estudantes (49,2%) não alcançou o nível dois de desempenho, na avaliação que chega ao nível máximo de seis. Na prática, isso significa que muitos brasileiros não são capazes de compreender um texto e estabelecer conexões entre suas diferentes partes.

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