A língua é viva

Nota do Instituto Alfa e Beto:
Este artigo foi publicado originalmente no jornal O Globo

Sob o pretexto de uma palavra de conotação chula em certas regiões do Rio de Janeiro, voltou à tona, na imprensa, a discussão sobre as questões de alfabetização. Descartemos o pretexto para entrar logo no mérito.

Dos 110 livros usados para desenvolvimento da fluência de leitura num programa de alfabetização adotado em dezenas de escolas, o Sindicato dos Professores identificou uma palavra que, pontualmente, pode ter duplo sentido. Dizendo-se indignado, o Sindicato, em vez de buscar o diálogo, vai à imprensa e à Justiça contra a Secretaria de Educação.

Examinemos a questão. A palavra usada não é um palavrão, como não o é o sobrenome Pinto. É um diminutivo, um nome que a criança dá ao seu chinelo. O mesmo texto é usado há pelo menos 7 anos, em centenas de municípios, sem polêmica ou constrangimento. É impossível a qualquer autor driblar todos os sentidos que uma palavra tem, teve ou pode vir a ter em comunidades diferentes da mesma língua.

Vale lembrar que esse Sindicato já agiu assim antes, criticando um texto da cultura popular, reescrito por Cecília Meireles. O processo foi arquivado – mas o arquivamento não foi notícia.  Estamos no mundo do politicamente correto. A acusação é sempre a priori.

Mas o problema não é esse. Se fosse, a discussão se daria nos canais competentes. O que há são reações ao esforço da Secretaria Municipal de Educação no sentido de melhorar o ensino. Nas escolas do Rio, a nota da Prova Brasil na 4ª série vai de 150 a 230 pontos. Este sim é grave problema pedagógico: uma criança é sorteada para uma escola no limite inferior e seu vizinho para a que alcança 230 pontos. Essa dispersão – própria de sistemas sem comando – não é objeto de denúncia, nem suscita interesse da mídia. Só um exemplo: no município de Sobral/CE, a pior escola chega a 170 pontos, e a melhor, a 200. A pior dali, onde 60% dos alunos recebem bolsa família, é melhor que a maioria das escolas do Rio. Lá as orientações da Secretaria chegam às escolas, são implementadas e os resultados aparecem.

Na verdade, a insatisfação do Sindicato – não partilhado por professores e escolas – é a adoção do método fônico. Quem acompanha a evolução da pedagogia, sabe que os métodos fônicos são usados em praticamente todos os países que adotam o Sistema Alfabético de Escrita, são comprovadamente mais eficazes em geral e são mais eficazes que outros métodos para alfabetizar crianças com dificuldades no aprendizado. Recentemente, a Academia Brasileira de Ciências divulgou relatório a esse respeito. A eficácia de um método não depende de torcida da arquibancada. Depende de evidências cumulativas, que se tornam consenso na comunidade científica internacional.

Com base nisso, cabe indagar sobre a responsabilidade de uma Secretaria de Educação perante uma população em que mais da metade dos alunos chega à 4ª série sem compreender o que lê. No caso específico do programa alvo das críticas do Sindicato, a Secretaria consultou as escolas e o implementou onde os diretores o escolheram.

Felizmente o Brasil começa a se incomodar com a qualidade da educação. Felizmente algumas secretarias, como a do Rio, vêm tomando medidas importantes – por vezes impopulares – para melhorar o desempenho de escolas, professores e das crianças. Felizmente os diretores e professores, em sua esmagadora maioria, cultivam o bom senso e buscam o que dá resultado. 

Vamos falar de alfabetização?

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