‘A sociedade não está interessada no debate sobre educação’

Nas últimas décadas, o Brasil conseguiu avançar no que diz respeito à inclusão de crianças na escola, mas pouco se fez para melhorar a qualidade do ensino – fator que está diretamente ligado ao avanço econômico e social do país. “Lidamos com a questão da educação de forma quantitativa. Isso inibe o debate sobre qualidade”, afirma João Batista Oliveira, doutor em pesquisa em educação e presidente do Instituto Alfa e Beto, uma ONG que ajuda a melhorar a educação de redes municipais. Para o especilaista, o país ignora evidências científicas sobre as formas mais eficientes de ensino e a prática de sucesso de países com sistemas educacionais mais avançados. “Devemos abandonar a ideia de reinventar a roda e adotar a atitude humilde de aprender com quem conseguiu avançar”, afirma ele em seu livro Repensando a educação brasileira (Editora Atlas), lançado nesta terça-feira em São Paulo. Na obra, Oliveira analisa as políticas educacionais brasileiras e faz uma dura crítica à formação dos professores. Nesta entrevista, ele fala também sobre a atuação dos sindicatos e sobre a falta de interesse da sociedade na melhora da educação.

Qual é o papel da qualidade do professor numa reforma educacional?

Se partimos do pressuposto de que a principal função da escola é ensinar, transmitir conhecimentos, então a qualidade do professor é imprescindível. Mesmo com as novas tecnologias, ele tem papel fundamental na sala de aula.

Esse pressuposto não é consenso no Brasil?

Não. Nós perdemos a noção do que é a escola. Há fortes críticas à ideia de transmitir conhecimento; críticas em torno de organizar esses conhecimentos em disciplinas (prova disso é que não temos um currículo) e há até uma forte desvalorização da ideia do conhecimento. Hoje, valorizamos muito mais a informação e damos pouca importância ao conhecimento. Ao fazer isso, a escola perde a razão de ser, perde a autoridade provinda do domínio do conhecimento. O professor perde sua autoridade. Ao mesmo tempo, se exige da escola um punhado de outras coisas que ela não tem condições, históricas ou contemporâneas, de fazer: ensinar valores, educação sexual, de trânsito, economia financeira, gerenciar conflitos, tem o bullying… A escola não tem competência para fazer tudo isso. Tiraram  da escola aquilo que historicamente ela sabia fazer.

Qual é sua opinião sobre a formação dos professores brasileiros?

Ela tem que ser vista no contexto da carreira: quem são as pessoas atraídas para a profissão, como elas são formadas na faculdade, como são iniciadas no trabalho e que tipo de carreira têm pela frente. Em todas essas áreas estamos mal. Recrutamos os estudantes com nível de formação muito baixo, de acordo com as notas do Enem. Os cursos de formação são desconjuntados. Para educação infantil e séries iniciais não se ensina praticamente nada. Os cursos de licenciatura são um pouco melhores, mas os estudantes são tão fracos que acabam sem uma formação robusta. Também não aprendem práticas de sala de aula, como ensinar um conteúdo de matemática ou física para adolescentes, por exemplo. Os futuros professores também não fazem estágios sérios. Dentro da escola, não há mestres para ensinar o professor iniciante, que não tem um tem modelo de sucesso para ser seguido. Isso tudo é um conjunto de fatores que precisam de uma política educacional única. Não adianta atacar um ponto e esquecer o resto. E, obviamente, é preciso dar condições de trabalho para o professor, garantir um ambiente razoável, um diretor que não dependa de vereador…

O senhor tem longa experiência na área de educação. Alguma vez o senhor viu ou testemunhou um debate que apontasse em mudanças nessa direção?

Não. Não há discussão sobre isso no Brasil.

Por quê?

O Brasil tem uma forma de lidar com a educação que é quantitativa. Desde a década de 60 que a polítca educacional tem a ver com crescimento. Colocar mais gente na escola, aumentar vagas, aumentar os anos de estudo, o tempo dentro da escola… Isso ainda não parou, mesmo com a população em declínio. Hoje, se fala em aumentar o príodo integral, tornar a pré-escola obrigatória, colocar 50% das crinças na creche. Essa mentalidade quantitativa inibe qualquer outro discurso qualitativo,  porque drena todos os recursos economicos e gerenciais. E é claro que falar em vagas e período integral dá mais voto.

O que o senhor achou da discussão sobre educação na última campanha?

Qual discussão? Não teve nenhuma, zero. Teve plano de governo. A Marina e o Aécio chegaram a apresentar um. Do governo, teve lá uma lista de supermercado. Mas isso é porque a sociedade não está interessada em discutir a qualidade da educação.

Por que o senhor acha isso?

Olha, isso é uma coisa impressionante. A educação de qualidade é o maior bem econômico na era da informação. Isso já está mais do que estabelecido. Mas não temos no Brasil nenhum movimento do setor produtivo que seja sólido, consistente e insistente de cobrança por qualidade da educação. No máximo, um muxoxo numa reunião de câmara setorial. Mas mobilização de verdade, não. São eles os que mais entendem que o PIB depende disso e não estão nem aí. Depois, temos as classes mais altas e a média. O desempenho das escolas particulares no Pisa (prova internacional de avaliação de alunos) é pífio.  As médias da elite brasileira são medíocres e está todo mundo satisfeito com o que tem. Absolutamente conformados. Eles até usam isso para ter seu diferencial: como o nível é muito baixo, qualquer esforço a mais entra no ITA ou na USP. Isso é muito confortável, usar essa mediocridade para ter seu diferencial. As universidades, outro setor da sociedade, são as mais omissas. Elas poderiam aprofundar o debate, mas não o fazem. A população das classes mais baixas, que é a maior vítima do descaso com a educação, muito menos fazem pressão. Ela se mostra satisfeita com a escola, consideram um serviço nota 7 ou 8, conforme mostram algumas pesquisas. nota 7, 8. É um serviço do governo relativamente bem avaliado.

E os sindicatos dos professores?

Ah, esses são muito competentes no seu trabalho. Eles conseguiram duas coisas. A primeira, mais perversa, foi convencer a população de que o professor é um coitadinho. Isso é péssimo para todo mundo. Uma pesquisa recente, divulgada durante a campanha presidencial, mostrou que na hora de criticar os serviços de saúde, a população culpa o médico, ele é o malvado que não atendeu direito ou deixou de atender. No caso da educação, o professor é a vítima. Nunca é culpa dele, foi o governo que não deu o dinheiro que  escola precisava. Isso é péssimo, primeiro porque é mentira. O professor não é um coitado. Segundo, porque essa percepção atrapalha a valorização da carreira. Nessa mesma linha, os sindicatos conseguiram classificam os professores de trabalhador, em vez de profissionais. São os trabalhadores da educação. Essa terminologia passa a impressão de que se trata de uma classe vitimizada, esfolada de tanto trabalhar. É um grande desserviço. A segunda coisa que eles conseguiram tem a ver com postura. Como o governo não media os conflitos em prol da sociedade, eles conseguem o que chamam de conquistas: benefícios que colocam em rsico a sobrevivência financeira de municípios e estados. Essas leis de protecionismo acacabam, portanto, achatando os salários da carreira. Se um professor pode faltar 33% de seu tempo, alguém tem que pagar a conta.

No seu livro, o senhor afirma que não precisamos reinventar a roda para melhorar a qualidade da educação. O que o senhor quis dizer com isso?

Tudo isso não acontece só no Brasil. Nos países desenvolvidos considerados potências da educação há certos consensos básicos de como chegar lá. Entre eles que a escola tem que ensinar, que é preciso ter um currículo básico, que a formação do professor é prioritária.  Já se sabe que os países mais adiantados em educação adotaram essas coisas e deu certo. Elas se baseiam em evidências científicas de quais são as melhores formas de ensinar e suas experiências nos dão as melhores práticas. Não tem como fugir disso. O grau de semelhança entre o básico que é feito nesses países é muito maior do que as belezuras que eles fazem isoladamente. O que todos têm em comum é a forma como o ser humano aprende. Isso é igual e há evidências e práticas de como montar um sistema educacional para fazer isso acontecer com eficiência. Mas o Brasil ignora isso.

 

 

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