Leitura para bebês

Leitura para bebês: isso faz sentido? As evidências dizem que sim. Ler para bebês deve ser um hábito a ser formado da mesma maneira que ensinamos as crianças a comer, dormir, tomar banho. Ler para bebês ajuda no desenvolvimento da linguagem e, consequentemente, no sucesso escolar. Mas como fazer isso, se as crianças ainda não sabem ler?

Vejamos as evidências.

Os efeitos da leitura são duradouros. Independentemente de outras características intelectuais ou socioeconômicas, estudos realizados na Inglaterra e Estados Unidos demonstram que, aos 10 anos de idade, crianças que adquiriram o hábito de leitura aos 3 anos apresentam desempenho escolar superior àquelas que não viveram a mesma experiência.

A linguagem é forte indicador do êxito escolar. Estudos do Instituto Nacional para a Saúde e Desenvolvimento Infantil dos Estados Unidos (NICHD) comprovam ser possível prever o desempenho que terão as crianças no final do 5º. ano, já no momento de seu ingresso nas escolas, aos seis anos de idade, com base na sua linguagem, especialmente no vocabulário. Quanto maior o desenvolvimento da linguagem, maior a chance de sucesso, porque é instrumento vital para o raciocínio e para a compreensão.

A transmissão da pobreza se faz pela linguagem. Inúmeros trabalhos – o primeiro deles realizado por Hart e Riley, na década de 90, mostram que, aos 30 meses de idade, já se pode observar diferença superior a 300% no vocabulário das crianças. Tais diferenças estão diretamente relacionadas ao nível socioeconômico e, especialmente, ao nível educacional dos pais. Annette Lareau foi mais além concluindo em seu livro Unequal Childhoods (Infâncias desiguais) que os resultados também decorrem da quantidade e da qualidade das interações entre pais e filhos. Se a transmissão da pobreza é fortemente associada à linguagem, esta, por sua vez, é fruto da condição familiar, formando um círculo nada virtuoso, que precisa ser rompido.

Entre 15 e 20 meses, as crianças começam a aprender a falar. Aos 20 meses, já possuem vocabulário de 200 a 600 palavras e formam 2 pequenas frases. Entre os 20 e 30 meses, esse vocabulário aumenta 50% e, quando chega o período escolar, já estará entre 3 mil a quase 10 mil palavras. Sobra pouco espaço para a escola superar as desigualdades de base.

O vocabulário é o tijolo do pensamento. A sintaxe é a argamassa. Quanto maior o vocabulário e mais articulada a sintaxe, mais temos sobre o que pensar e mais ferramentas temos para pensar. Esses não são os únicos fatores que afetam o desenvolvimento da inteligência e a aprendizagem, mas são muito importantes. Como a linguagem se desenvolve? Como os livros podem ajudar?

A linguagem se desenvolve pela interação entre adultos e crianças e o aprendizado se dá pela imitação. Quanto melhor o modelo, melhor a qualidade da linguagem. No cotidiano, mesmo nos lares com nível superior de instrução, é empregada linguagem coloquial, apoiada em vocabulário restrito e sintaxe bastante simplificada. Quando falamos, nos valemos de recursos não-verbais na busca do entendimento.

Os livros são a saída. Mesmo o gibi mais simples tem vocabulário e sintaxe normalmente bem mais sofisticados do que a linguagem oral. A estrutura da linguagem escrita dos livros é a mesma estrutura da linguagem que a criança vai encontrar na escola. Ao manusear livros e ouvir histórias desde cedo, a criança começa a aprender a observar, a identificar detalhes, a conversar sobre sentimentos, a estabelecer relações entre fatos reais e imaginários e identificar eventos fora do aqui e do agora. Aprende a abstrair.

As evidências não param aí. Sabemos que não basta ler para crianças. É preciso ler dialogando, perguntando, estimulando a resposta, relacionando o mundo da leitura com a leitura do mundo. E mais: o contexto afetivo e aconchegante do colo, da leitura na cama antes de dormir, das brincadeiras com livros durante o banho, tudo isso permite a associação positiva entre leitura e afeto, entre ler e gostar de ler.

Muitos pais fazem isso de maneira intuitiva, mas são minoria. É preciso orientar pais e cuidadores a ler com e para crianças.

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