Repensando a Educação Brasileira

Nota do Instituto Alfa e Beto:
Este artigo foi publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia

A educação é um dos poucos instrumentos, senão o único, capaz de reduzir de forma sustentável a desigualdade social e alavancar o desenvolvimento. No Brasil, porém, a educação não só reproduz a inequidade como contribui para agravá-la. Não existe um padrão mínimo de funcionamento nas escolas de uma mesma rede, cada uma faz o que quer e os alunos com mais dificuldades sociais estão exatamente nas piores escolas. Das mais de 100 mil escolas públicas do país, apenas 706 produzem resultados superiores ao que seria naturalmente esperado com base no status socioeconômico dos alunos.

Apesar disso, continuamos com as mesmas políticas fruto, em grande parte, da pressão das corporações que se tornou um pensamento único que empobrece o debate sobre ensino no Brasil. Precisamos sair da forma, admitir que fazendo mais do mesmo não vamos mudar a situação calamitosa da educação brasileira. Este é o tema central do livro que acabo de publicar com o título Repensando a Educação Brasileira.

O ponto de partida é repensar o papel da escola na sociedade. O relativismo introduzido com a pós-modernidade desvalorizou o conceito de cultura e tradição cultural. Como a escola era responsável pela transmissão cultural, ela também perdeu seu eixo de referência. Para retomar o fio da meada a sociedade precisa definir o que espera da escola. Se a história servir de guia, o que se pode esperar de escolas é que se ocupem de transmitir o conhecimento de uma forma que permita aos alunos transformá-lo e ampliá-lo. Mas para isso é preciso valorizar o conhecimento, restabelecer critérios de busca, análise e comprovação da verdade, promover o diálogo entre o local e o universal e não condenar os alunos aos particularismos do local.

Se valem os ensinamentos da história, cabe à escola ensinar a pensar, recolocar a razão como força motora da vida cultural e restabelecer a importância do esforço e da reflexão, do estudo e do exercício, que não podem ser substituídos pelo achismo, a intuição e a “criatividade” apoiada no vácuo.

Se conseguirmos resgatar critérios básicos para repensar a escola, o próximo passo deverá focar nas instituições que compõem o mosaico de um sistema educacional, e da qual temos poucas e frágeis: currículo, professores, avaliação, financiamento, gestão, incentivos.

O capítulo dos professores merece atenção especial, pois ninguém conseguiu até hoje melhorar a educação sem mecanismos robustos para atrair e manter bons professores e diretores de escola. Por isso é preciso repensar de forma consistente as políticas de atração, formação, salários, as condições de trabalho, carreiras e avaliação do magistério. Não basta o discurso vazio da “valorização dos professores” ou os arranjos inócuos da “educação continuada”.

Repensar a educação requer novos critérios. Um deles são as evidências que se acumularam ao longo dos séculos, mas que hoje são cientificamente comprovadas. Dispomos de elementos para fundar uma política e práticas educacionais com base em evidências. O outro são as melhores práticas usadas nos países onde a educação serve à grande maioria da população de forma adequada: se as seguirmos possivelmente faremos tudo muito diferente do que vimos praticando no Brasil desde a década de 70.

Repensar a educação requer, antes de mais nada, a disposição para o debate – hoje amordaçado pelo pensamento único que domina todas as instâncias de decisão sobre a educação e o marasmo que paira sobre as faculdades de educação. Mas nada disso vai acontecer se as elites e a população não se organizarem para pressionar o governo – em todas suas instâncias – por uma educação de qualidade. Enquanto isso não ocorrer vale a máxima de Millor Fernandes – livre pensar é só pensar.

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