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QI, desempenho escolar e capital cognitivo de um país | Capítulo 15

Este post faz parte de uma série produzida pelo Instituto Alfa e Beto que irá desvendar em 20 capítulos a inteligência. Todas as segundas-feiras são publicados novos artigos neste espaço. Acompanhe! Clique aqui e veja todos os posts já publicados. Para ver o índice completo da série, clique aqui.

Quanto mais o conhecimento se torna essencial para o progresso econômico e social, maior é o valor do capital humano de um país. Mas na sociedade do conhecimento, também muda o peso relativo entre capital financeiro, recursos naturais e recursos humanos. Isso vale tanto para a produção de riqueza quanto para alterar as relações entre as pessoas e as hierarquias nas organizações e nas relações de trabalho.

A partir da década de 60, os economistas começaram a tratar do capital humano, e os indicadores mais usados até recentemente incluíam os anos de escolaridade, cursos concluídos, ou a reputação ou qualidade da instituição onde o indivíduo se formou.

No nível dos indivíduos, os estudos sempre encontraram relações positivas entre esses indicadores e o salário das pessoas. Também havia, e ainda há, uma relação entre o perfil educacional de um país e seu PIB, ou nível de riqueza. E há, cada vez mais, relações entre o nível educacional da população e a taxa de produtividade – ou seja, o valor produzido por cada trabalhador em função do total de investimentos. Nos Estados Unidos, por exemplo, nos últimos trinta anos, parcela significativa da produtividade vem sendo explicada pelo aumento na qualificação da força de trabalho17.

Mas esses indicadores – e o impacto do conhecimento adquirido pelos indivíduos – começam a mudar, mesmo porque a maioria dos países desenvolvidos já atingiu níveis bastante elevados de educação formal – cerca de 83% dos jovens concluem o curso médio e cerca de 49% dos jovens de 25 a 34 anos haviam concluído o curso superior, conforme se pode observar nas tendências refletidas no relatório da OCDE Education at a Glance de 2014. Agora começam a surgir outros tipos de medidas qualitativas que mostram melhor associação com o nível de desenvolvimento econômico dos países e o QI da população.

Alguns estudos mostram que cada ano adicional de escolaridade obtido a partir de 1970 corresponde a um aumento de 3,5 pontos de QI no ano 2000, o que explica entre 60% e 80% do aumento bruto do QI num conjunto de 88 países. Outros estudos mostram que um ano adicional de escolaridade ao longo dessas três décadas resulta num ganho per capita de US$ 1.61418.

Outros pesquisadores demonstraram a relação entre o nível de QI da população e acesso a ocupações de maior prestígio e renda, relação entre QI e maior nível de renda, menor nível de problemas de saúde e outros resultados geralmente considerados como socialmente positivos19.

Países também aumentam o seu QI, e por vezes isso ocorre de forma maciça. O fenômeno é conhecido como o “efeito Flynn20 e se baseou em estudos realizados em 1987 em 14 países, confirmando achados anteriores identificados por outro grupo de pesquisadores21. Mas as diferenças entre países são enormes, e na explicação das diferenças podemos aprender mais sobre as causas desse crescimento.

O tamanho do ganho estava associado ao grau de modernização. Nas nações que já eram modernas no início do século XX, no sentido de terem realizado a sua Revolução Industrial, o crescimento médio é de 3 pontos por década – mesma taxa de países como o Brasil e tantos outros que iniciaram seu processo de industrialização na primeira metade do século passado. A Argentina foi uma exceção, tendo logrado um avanço de 22 pontos entre 1964 e 1998.

Nações com industrialização mais recente como o Quênia, no Caribe e Sudão mostraram taxas bem mais elevadas. Esse mesmo tipo de estudo sugere que pode haver um limite máximo – as nações escandinavas parecem ter atingido um máximo e se mantiveram nele, algumas mostrando algum declínio, mas esse declínio não se verificou em países como a Inglaterra e Estados Unidos, onde perduram os ganhos médios anuais de 3 pontos22.

Se tal efeito máximo existe, é possível que nas próximas décadas haja uma convergência do QI de diferentes países – o QI dos Estados Unidos em 1917 era igual ao QI dos países não industrializados. Esse fato, por sua vez, sugere que não há um limite mínimo de QI que impossibilite a industrialização – daí a hipótese da convergência.

Outro aspecto importante: a inteligência cristalizada cresce mais do que a inteligência fluida – pois aquela depende mais de escolaridade. Na busca das causas desse aumento foram descartadas hipóteses como alimentação ou quebra de isolamento entre os diferentes países. A explicação mais convincente parece estar associada aos desafios intelectuais trazidos pelo processo da Revolução Industrial – que requer um raciocínio mais sistemático, organizado, lógico e próximo ao modo científico de pensar. Por outro lado, isso exigiu avanços no ensino de certas competências, especialmente matemáticas.

Flynn22 analisou detalhadamente os ganhos obtidos nos testes de inteligência, especialmente o teste das Matrizes progressivas de Raven, e constatou os ganhos mais surpreendentes:

• 30 pontos (dois desvios padrão) no teste de Raven como um todo, entre 1947 e 2002;
• Ganhos significativos no subteste de similaridades –que envolve habilidades de classificação;
• Ganhos expressivos no subteste de Desenho de Blocos, que envolve a habilidade de resolver problemas novos que não envolvem a mera aplicação de regras;
• Ganhos de quase 15 pontos no subteste de compreensão.

O leitor deve ter cuidado para entender que as normas aplicadas a um teste como o QI mudam para acomodar as mudanças de capacidade da população a que se aplicam. O QI é uma medida estável, mas não é fixa. É como um prédio que balança quando há terremoto, garantindo sua estabilidade.

Clique aqui para ler as Referências Bibliográficas citadas no texto.

Na próxima semana….

No próximo texto analisaremos a importância de uma elite intelectual para o crescimento econômico e cognitivo de um país. Não perca!

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