Folha de S. Paulo publica artigos que debatem a priorização do método fônico de alfabetização na rede pública de ensino

Existe um grupo formado por pesquisadores e profissionais que trabalham com base em evidências acumuladas sob o guarda-chuva da “Ciência Cognitiva da Leitura”.

A Folha de S. Paulo, em sua edição do dia 30 de março, na página de Opinião (Tendências/Debates), publicou dois artigos que respondem à pergunta “A rede pública de ensino deve priorizar o método fônico de alfabetização?”

Um dos artigos é do presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira, e o outro, do presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), Alessio Costa Lima.

Parabenizamos a Folha de S. Paulo pela iniciativa de estimular o debate público sobre um tema essencial para a educação brasileira, como o método de Alfabetização, e reproduzimos abaixo o artigo do presidente do Instituto Alfa e Beto.

Alfabetizar com método

João Batista Oliveira

A maioria das escolas brasileiras não consegue alfabetizar seus alunos. Alguns se alfabetizam, enquanto a maioria fica à margem. Os entendidos concordam que o problema da alfabetização – como os problemas do ensino – não se limita a um fator específico, como salários, professores, materiais ou métodos. No caso da alfabetização, a questão do método é importante e tem sido alvo de intensos arroubos e destemperos verbais. Três grupos divergem em aspectos importantes da questão.

O primeiro grupo é formado por pesquisadores e profissionais que trabalham com base em evidências acumuladas sob o guarda-chuva da “Ciência Cognitiva da Leitura”. Esse grupo reconhece que o ensino da alfabetização deve ser feito de forma sistemática e explícita, com sequência, materiais e métodos próprios, e, portanto, em paralelo, mas não ao mesmo tempo que o ensino de outros componentes linguísticos – como a redação, o estudo do vocabulário ou a compreensão de textos. A razão para isso se encontra nas limitações do cérebro em processar informações e na importância do uso consistente de regras para identificar as palavras – se o aluno aprende a ler ora usando as regras de decodificação ora adivinhando a palavra pela forma ou pelo contexto, ele nunca será um bom leitor. Isso já foi bem estabelecido por pesquisas rigorosas desde 1981. Esse grupo apoia suas convicções em evidências e resultados consolidados há mais de vinte anos. Trata-se de uma tese vencedora em todo o mundo. A proposta é adotada em todos os países desenvolvidos que utilizam o Sistema Alfabético de Escrita – todos, sem exceção, além de Cuba.

O segundo grupo é formado sobretudo por educadores e especialistas em estudos da língua, que advogam o ensino contextualizado da alfabetização: o ponto de partida é o texto, não a palavra ou o sistema alfabético. Esse grupo reconhece a importância dos métodos fônicos, mas não reconhece a necessidade de seu ensino sistemático e explícito. Esse grupo apoia suas convicções em princípios teóricos e não se preocupa em apresentar evidências. Esta tese é vencedora no Brasil há mais de 40 anos, patrocinada pelo MEC e pelas faculdades de educação em todo o país – e os resultados estão aí.

O terceiro grupo é formado por pessoas e instituições que compartilham a visão teórica do grupo dois, mas ignoram as evidências científicas sobre a importância do método fônico, minimizam a relevância de métodos, advogam o uso de métodos mistos e não apresentam resultados de seu trabalho. Com essas pessoas e instituições é impossível dialogar.

Um simples exemplo ajuda a entender a diferença prática entre essas visões sobre o lugar da alfabetização no ensino escolar. Quando ensinamos os fundamentos do balé, as crianças não começam dançando o Lago dos Cisnes. Elas aprendem primeiro os fundamentos, de forma linear, sem ambiguidades. Ninguém aprende a se equilibrar “do seu jeito”. É treino pesado na barra, com foco na técnica. Aos poucos, vão se tornando capazes de articular movimentos e adquirir um repertório de habilidades fundamentais para participar de atividades mais integradas – fazendo “pontas” em apresentações escolares, ainda sem muita ideia do todo, mas absorvendo o contexto. Tudo a seu tempo e em seu devido lugar.

É isso que propõe a Ciência Cognitiva da Leitura. É a isso que resistem nossos educadores. Para eles importa a teoria, não as evidências.

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