Ferramenta de avaliação para a volta às aulas lançada pelo Instituto Alfa e Beto é pauta no jornal O Globo

O jornal O Globo publicou nessa quinta-feira, 6 de agosto, uma matéria abordando a ferramenta criada pelo Instituto Alfa e Beto para avaliar os alunos do Ensino Fundamental na volta às aulas presenciais em meio à pandemia de covid-19.

O instrumento ferramenta é voltado para secretarias de educação, que podem ter um raio X da situação do aluno, turmas, escolas, séries e toda a rede, e com isso fazer um planejamento mais adequado ao retorno das aulas.

Leia a matéria abaixo ou clicando aqui .

É possível transportar as virtudes da escola para o ensino à distância?

Nos posts anteriores dessa série sobre as funções da escola em tempos de covid-19 (leia aquiaquiaqui e aqui), colocamos em evidência a relação entre a forma e os ingredientes do bolo: a escola, enquanto instituição, possui mecanismos desenvolvidos ao longo de século que se comprovaram adequados para cumprir a sua principal função, que é a de promover o desenvolvimento cognitivo das crianças.

Hoje sabemos que esses mecanismos estruturais e não cognitivos são meritórios em si e importantes para os indivíduos e para a formação de capital humano. Mas também sabemos que há outras formas eficazes de ensino – que não apenas o ensino presencial.  O fato de que a escola brasileira, especialmente a escola pública, não vem cumprindo seu papel de forma adequada não tira a validade dessas afirmações.

Nos próximos anos, caberá à escola assimilar e digerir esses novos desafios. O “velho normal”, embora consistente em seus pilares, não funcionou no Brasil por uma série de razões. A mais importante é que as políticas adotadas não conseguiram atrair e manter no magistério jovens de alto talento – matéria prima essencial para que a escola possa mostrar o seu insuportável brilho, na bela releitura que Olga Pombo faz da análise de Hannah Arendt sobre a crise da educação. Portanto, o “velho normal” não constitui um bom ponto de partida. Mas não é este o foco desta série de posts.

O desafio apresentado é duplo. De um lado, a pandemia nos deu oportunidade de refletir sobre as condições que levam o bom ensino presencial a funcionar. De outro, deixou claro que o ensino à distância não consiste apenas em reproduzir o modelo de ensino presencial: seu êxito vai depender de nossa capacidade de entender o que torna eficaz o ensino presencial e aprender a utilizar as possibilidades da tecnologia para (a) fazer o que não conseguimos no ensino presencial e (b) incorporar às tecnologias as práticas pedagógicas que tornaram o ensino escolar à prova do tempo.

Este é um processo lento que requer aprendizagem. Nesses poucos meses, já vimos um pouco de tudo: tentativas de replicar aulas expositivas, tentativas de criar situações mais ou menos realistas de interação. Muito comuns são tentativas de ocupar o tempo com atividades triviais e desconectadas, a pretexto de manter as interações entre professores e alunos, como se o importante fossem apenas as interações e não o conteúdo que elas veiculam. Essas iniciativas podem ser válidas e importantes, mas possivelmente de baixa eficácia. Não captam a essência do ensino presencial nem do ensino à distância.

Um desafio é estender o ensino presencial com bons professores usando novos meios. É o que vêm procurando fazer algumas escolas privadas. Outro é escolher alternativas tecnológicas robustas para suprir e substituir, no todo ou em parte, a lacuna criada. É o que vemos, por exemplo, na iniciativa de alguns estados – notadamente o Estado de São Paulo – com a proposta de ensino à distância. Um terceiro será o de estender estratégias existentes de ensino estruturado para a modalidade não presencial, como vêm fazendo muitas instituições privadas de ensino superior já acostumadas com o EAD ou municípios já afeitos ao uso de estratégias de ensino estruturado.

A pandemia abriu as portas para repensar a escola. Há espaço para vivermos no melhor dos mundos (ou pelo menos num mundo melhor), conciliando as virtudes intrínsecas do modelo escolar com as virtudes das novas tecnologias – muitas delas ainda desconhecidas ou inexploradas. Nesse mundo de incertezas, parece surgir uma certeza: a sabedoria estará na capacidade de conciliar a robustez do modelo escolar com a flexibilidade do modelo tecnológico. E isso exige conhecimento profundo de ambos.

Essas são reflexões importantes para repensar o “novo normal”. Essas, sem dúvida, são missões importantes da escola. No Brasil, a escola cumpre mal – e muito mal – sua função principal, que é a de promover o desenvolvimento cognitivo. Mas hoje também sabemos que para promover o desenvolvimento cognitivo é importante também cuidar desses outros aspectos. Só que um depende do outro – daí a primazia do cognitivo na definição da escola.

No curto prazo, as escolas precisam se preparar para reabrir, acolher os alunos, recuperar o tempo perdido. Também precisam se preparar para eventuais novos fechamentos. Mas, no longo prazo, interessa que a escola, especialmente a escola pública, se dê conta de que sua missão principal é promover o desenvolvimento cognitivo de forma harmônica com o desenvolvimento das habilidades psicossociais.

A pandemia e o ensino híbrido trazem de volta ao centro das preocupações um dos objetivos mais centrais da escola: promover a autonomia do aprendiz. Isso deverá provocar profunda revisão no currículo e no desenvolvimento robusto de habilidades básicas e de estratégias que permitam ao aluno aprender a aprender.

As habilidades socioemocionais no contexto do ensino das disciplinas

Este é o quarto post da série “Redescobrindo as funções da escola em tempos de Covid-19″ (leia os anteriores aquiaqui e aqui).

A epidemia do coronavírus fez a sociedade sentir falta – ou até mesmo saudades – da escola. Isso vale para os pais, mas também para as crianças e jovens. Quem diria! Mas isso tem a ver com o tema tratado no post anterior e continuado neste: as escolas são instituições fundamentais para promover o desenvolvimento social e emocional das crianças e jovens. No futuro, poderão ser substituídas, inclusive pelo ensino à distância e o homeschooling. Mas por mais de 20 séculos elas têm conseguido cumprir esse papel.

Um estudo recente realizado pelo CDC – Center for Diseases Control dos Estados Unidos organizou as informações sobre esses aspectos importantes da ecologia da aprendizagem. Eis uma breve síntese:

. As escolas promovem um contexto para as crianças interagirem socialmente – o que é essencial para o desenvolvimento da linguagem, comunicação e habilidades sociais, emocionais e interpessoais.

. Estando nas escolas, as crianças e jovens têm mais oportunidade de desenvolver e manter amizades, aprender a comportar-se em grupos, interagir com adultos fora de sua família.

. Também nas escolas as crianças e jovens têm acesso a sistemas de apoio que lhes permitem reconhecer e gerenciar suas emoções, estabelecer metas e lutar por elas, apreciar a perspectiva do colega, tomar decisões que levam a consequências.

. Esse contexto ajuda a formar conexões que geram uma segurança e estabilidade, e contribuem para o bem-estar.

. A escola também promove, direta ou indiretamente, um mecanismo para regular o sono e as rotinas domésticas, bem como atividades físicas essenciais para o desenvolvimento de crianças e jovens.

. Tudo isso pode ser ainda muito mais relevante para crianças e jovens com dificuldades especiais e que encontram na escola recursos para apoiá-los de maneira mais eficaz.

Finalmente, a ausência prolongada da escola pode aumentar a exposição das crianças e jovens a situação de violência e risco. Casos de violência doméstica são frequentemente detectadas nas escolas mais do que em qualquer outro lugar. A merenda escolar também constitui, para muitas crianças, um complemento ou até mais de suas necessidades alimentares.

Post originalmente publicado no blog “Educação em Evidência”, no portal da revista Veja.

Como a estrutura da escola afeta a aprendizagem?

estrutura da escola

Concluímos o post anterior (leia aqui o post anterior e aqui o primeiro desta série) ressaltando que o impacto da escola sobre a aprendizagem deriva, em grande parte, das suas características estruturais. Assim como a forma modela o bolo, a estrutura hierárquica da escola modela comportamentos que podem levar a resultados cognitivos desejáveis. Muitos hão de torcer o nariz – a desconstrução da escola na década de 70 deixou marcas desastrosas em vários países, e profundas na educação brasileira.

A atual pandemia colocou em evidência o risco mais grave: o que vai acontecer com a aprendizagem? Muitos se apressam em atribuir os problemas à falta de internet ou conectividade. Isso é importante, mas está longe de figurar dentre as questões centrais. A questão central se refere à “ecologia” da aprendizagem, ou seja, os alunos foram arrancados de seu habitat natural onde – bem ou mal – estão acostumados a aprender.

Esse “habitat” promove uma estrutura para aprender. Alguns desses aspectos são óbvios. Referimo-nos aqui às características da escola formal, que têm início no ensino fundamental: a escola tem calendário, currículo, ano letivo, disciplinas, regras. Tem poder para implementar suas regras, inclusive no que se refere a normas de comportamento. Organiza o ensino em disciplinas e implementa mecanismos disciplinares para reforçar e regular comportamentos. Outras escolas agregam outros componentes, como o envolvimento das famílias, o carisma do diretor, o clima acadêmico e coisas do gênero.

Esse conjunto de fatores estruturais e os mecanismos que promovem (ou não) a sua implementação, no dia-a-dia, contribuem para desenvolver o que os antigos chamam de virtudes cívicas (“não aprendemos para a escola, mas para a vida”), Jim Heckman chama de “caráter”, e hoje é mais conhecido como “habilidades socioemocionais”.  O que os antigos não sabiam, os psicólogos descobriram e os economistas ajudaram a explicar: o impacto dessas habilidades não apenas para ajudar a aprender, mas para ajudar a viver e ter êxito no emprego e na vida.

Muitas dessas habilidades se desenvolvem em função da própria estrutura, regras e modos de funcionamento da escola. Um exemplo simples é o impacto de políticas de pontualidade e frequência escolar, ou políticas relacionadas com “colar” em provas.  Mas é sobretudo pelo exemplo e pelo ensino rigoroso de um currículo rigoroso implementado com o uso rigoroso de métodos e técnicas adequadas à disciplina e consistentes entre si que os professores ajudam as crianças e jovens a desenvolverem essas habilidades. Também podem ajudar atividades “extra-curriculares” em que os alunos terão mais vez, voz e oportunidades para tomar iniciativa e exercer a liderança.

No próximo post, trataremos das demais características da estrutura e funcionamento da escola que promovem o desenvolvimento das chamadas habilidades socioemocionais.

Post original no blog Educação em evidência, na revista Veja.

Em tempos de covid-19, cabe perguntar qual é o valor do ensino presencial

volta às aulas

Vamos dar sequência à série de posts “Redescobrindo as funções da escola em tempos de covid-19″. No primeiro post, procuramos responder algumas perguntas relacionadas à aprendizagem: o que os alunos vão perder? Vão parar de aprender? Como fica o prejuízo? E a equidade?

Neste post, vamos tratar do valor do ensino presencial.

O despreparo (em todo o mundo) para lidar efetivamente com as novas (e velhas) tecnologias de ensino está associado em grande parte ao desconhecimento das características que tornam robusto o ensino presencial.

O modelo institucional da escola (professor, aluno, sala de aula, horários, disciplinas, disciplina, provas, notas) vem se consolidando há mais de 20 séculos, e sua universalização, a partir da Revolução Industrial, confirmou sua robustez.

Conhecer melhor o valor do ensino presencial poderá ajudar tanto a aprimorar a sua qualidade quanto a incorporar o ensino híbrido e outras formas de tecnologia e ensino à distância.

A pergunta relevante é: o que dá robustez ao modelo da escola convencional? Neste post, tratamos do que é próprio da escola, o ensino presencial, que se reflete no modelo predominante, mas não exclusivo, da aula expositiva. Tratamos aqui de quatro aspectos de maneira breve e isolada. Mas possivelmente seu efeito não é isolado – cada aspecto interage e maximiza os demais.

. A escola organiza e transmite informação. Um bom currículo escolar apresenta conteúdos relevantes de forma organizada e com uma estrutura e sequência que facilitam e promovem a sua retenção e transferência a outras situações. Evidências sobre o tempo de ensino, frequência escolar e uso de testes do tipo perguntas e respostas estão fortemente associadas ao desempenho dos alunos em testes acadêmicos e de QI.

. A escola ensina e requer modos de cognição mais desafiadores. O modo padrão é chamado sintagmático, característico da criança, dos indivíduos de baixa escolaridade:  banana e laranja são comestíveis, têm casca, semente. São observações puramente funcionais, perceptuais. O modo da escola é paradigmático – aprendemos a classificar para além das aparências (são frutas). A escola faz isso o tempo todo, e isso muda a forma como o cérebro processa informação.

. A escola ensina e prática modos de aprendizagem que ajudam a aprender: perguntas e respostas, tempo limitado para responder, aprender a ouvir o professor ou o colega, responder a queima-roupa, ficar concentrado por algum tempo. Há mecanismos sociais para desenvolver e assegurar a aprendizagem desses comportamentos – chamados de metacognição.

. A escola ensina coisas que “não servem para nada” de maneira proposital. Não se chega ao absurdo de plantar e arrancar cabos de vassoura, como no treinamento monástico. Mas chega perto disso. A escola encoraja o raciocínio formal, descritivo, repetitivo e, sobretudo, descontextualizado, o que força o raciocínio, obriga a pensar, e não apenas a “falar”, ou seja, ensina o domínio da língua e a explicitação da sintaxe para entender todo tipo de relação (proximidade, causa efeito etc.) – elementos essenciais para promover o raciocínio abstrato.

Tudo isso funciona quando é bem feito e vai junto. Por detrás disso, encontra-se uma estrutura, uma organização hierárquica, que torna possível ao professor cumprir o seu papel e, dessa forma, promover as habilidades socioemocionais que, entre outras coisas, viabilizam a atenção, a memória e, sobretudo, o esforço necessário para as aquisições cognitivas.

Continuaremos a tratar desse assunto nos próximos três posts.

Dica de leitura: livro Aprender e Ensinar

(Post publicado originalmente no blog Educação em Evidência, em Veja.com)

Redescobrindo as funções da escola em tempos de Covid-19

escola e covid-19

O fechamento das escolas devido à pandemia de coronavírus coloca na mesa várias questões importantes sobre a natureza e função da escola. Vamos dar início hoje a uma série de posts sobre as virtudes do modelo escolar e os desafios para incorporá-las a estratégias de ensino híbrido ou ensino à distância.

O primeiro conjunto de perguntas se refere à aprendizagem – os alunos vão perder? Vão parar de aprender? Como fica o prejuízo? E a equidade?

O segundo conjunto refere-se às outras funções sociais, seja para acolher as crianças enquanto os pais trabalham, seja para assegurar uma estrutura e contexto para o amadurecimento psicossocial das crianças e jovens.

Neste post, apresento uma reflexão de caráter mais geral. Nos próximos, elaboro um pouco mais sobre essas duas questões, e no final trato das implicações das tecnologias no ensino.

Comecemos do começo: em todo o mundo, os pensadores e educadores se preocupam com o impacto da interrupção prolongada das aulas. Grande parte da preocupação é focada na questão da equidade. Em um país como o Brasil, as escolas privadas seguem em frente, e as públicas vão do cumprimento total do calendário ao total fechamento. Em outros países como, por exemplo, os Estados Unidos, praticamente todas as escolas públicas continuaram o ano letivo, mas há enorme diferença entre o que é oferecido por diferentes sistemas e redes públicas de ensino, como também há enormes diferenças entre as condições dos alunos.

As evidências parecem sólidas: o principal problema não é a perda, e sim o que se deixa de aprender. O outro problema é o aumento das diferenças – os mais ricos terão mais oportunidade de continuar aprendendo, e isso tenderá a aumentar ainda mais as diferenças.

Aqui também as evidências indicam que, no curto prazo, até uns dois anos, essas diferenças voltam ao que eram. Em geral, as perdas não são irrecuperáveis. Alarmante é pensamos que (a) o nível de desempenho do “velho normal” era muito baixo e (b) as diferenças eram muito elevadas. Portanto, pensar sobre o “novo normal” deve partir de uma reflexão sobre o “velho normal”. Será que vamos conseguir sacudir a marca registrada de nossa sociedade, que são as desigualdades?

Mas também há riscos na área comportamental, como os decorrentes do estresse, que afeta as pessoas de modo diferente. Além das variáveis individuais, as pessoas diretamente afetadas pela pandemia estarão mais vulneráveis. Pode haver casos graves – a estimativa de especialistas em saúde mental vai de 10 a 15%, com base em outras situações similares. Esses são casos que necessitam de tratamento especializado, mas a maioria é curável ou controlável.

Há riscos também relacionados aos aspectos da escola que não vêm sendo devidamente cuidados e valorizados: sua função de ajudar a estruturar a vida das pessoas – os alunos e suas famílias. Isso vai da estruturação dos horários e rotinas à estruturação de condições que promovem importantes habilidades não cognitivas.

Vamos dar continuidade a esse assunto nos próximos posts.

Obs: texto originalmente postado no blog Educação em evidência.

João Batista Oliveira comenta em vídeos sobre desafios e perspectivas na volta às aulas presenciais em meio à pandemia de coronavírus

volta às aulas

Quais os principais desafios e perspectivas para a volta às aulas presenciais em meio à pandemia que vivemos? Esta pergunta é respondida pelo presidente do Instituto Alfa e Beto, professor João Batista Oliveira, em dois vídeos que você pode assistir aqui aqui.

De acordo com o especialista, as ações mais eficientes se concentram em quatro medidas: primeiro, um bom diagnóstico – para verificar em que ponto está cada aluno; em segundo, o foco na alfabetização; em terceiro, o desenvolvimento de técnicas de fluência de leitura; e em quarto, o foco no ensino de disciplinas essenciais: Língua Portuguesa, Matemática e Ciências.

João Batista Oliveira alerta também que as redes municipais precisam estar preparadas para lidar com reveses como a alta da taxa de evasão escolar e os gastos extras que surgirão, como, por exemplo, as despesas com higiene. A boa notícia é que, de acordo com estudos realizados em conjunto com a consultoria IDados, os alunos não devem apresentar perdas cognitivas.

O maior desafio, no entanto, será lidar com o aumento da desigualdade: “alguns alunos têm condições melhores em casa e terão aprendido mais nesse período. Logo, a diferença deve aumentar”, explica. Mais do que a preocupação com o formalismo de cumprir a carga horária, João Batista afirma que é preciso pensar em estratégias que funcionem.

“A pandemia pegou todos de surpresa, agora é preciso pensar. Como será a carga horária e a questão da aprovação? Para organizar a volta, é necessário pensar como acolher as famílias, como lidar com as novas tecnologias e como preparar os professores para essa nova realidade”, afirma.

Por fim, João Batista Oliveira lembra a importância do ensino estruturado como essencial na retomada das aulas: “as evidências mostram que materiais organizados e com sequência e coerência, como os disponibilizados pelo Instituto Alfa e Beto, podem ajudar nesse processo de retomada das aulas presenciais”, diz.

Como será a volta às aulas?

Foi publicado um artigo meu no jornal Estado de São Paulo sobre a voltas às aulas. O artigo trata do que as evidências dizem a respeito dos impactos decorrentes da suspensão prolongada das aulas.

Com base nessas evidências, o artigo sugere quais medidas têm baixa probabilidade de sucesso – infelizmente, essas são as medidas que vêm recebendo maior atenção por parte das autoridades estaduais e municipais.

Predomina o formalismo – questões como aprovar ou não os alunos, cumprir ou não os dias letivos, as 800 horas e coisas do gênero. Não vou repetir aqui o que se encontra no artigo. As reflexões a seguir concentram-se num aspecto: o que vale a pena fazer e por onde começar.

O apagão do MEC, ao que parece, veio para ficar. Olhando para o passado, não fica muito claro o tamanho da perda causada por esse apagão, embora, em tese, um governo federal poderia e deveria ter um papel importante na educação num país tão atrasado e tão desigual.

As escolas privadas vão se virando de maneira pragmática, umas com maior brilho e competência do que outras. Mas seu alunado é outro, não dá para comparar.

Redes públicas vêm se comportando de maneiras diferenciadas. Algumas delas com excepcional zelo e dedicação. As dificuldades objetivas são imensas, e a falta de experiência também. Mas o que mais predominam são o descaso e a improvisação. Não cabe buscar causas e culpados, especialmente num momento tão difícil. O que fazer?

Talvez, a principal lição da pandemia seja a oportunidade de verificar o despreparo das redes de ensino para gerenciar o cotidiano. O conhecimento sobre as reais condições de trabalho e de estudo dos alunos é baixo. O relacionamento com as famílias é precário. Acima de tudo, os programas de ensino quase sempre inexistem. Os materiais são inadequados. Alunos não foram alfabetizados no 1º ano. A maioria deles não aprendeu a estudar de maneira autônoma. E por aí vai. Se esta lição for bem aprendida, terá sido valido, desde que leve a um segundo passo construtivo. Qual seria, então, esse passo?

Um ponto de partida adequado poderia ser a aplicação de um diagnóstico robusto e competente dos alunos. Resultados da Prova Brasil são muito genéricos. Um diagnóstico preciso permitiria colocar a nu o real nível de conhecimento dos alunos, independente de sua série escolar.

Por razões pragmática – e apesar de suas profundas fraturas –, a BNCC poderia servir de parâmetro. A partir daí, seriam elaboradas estratégias para colocar as coisas no trilho. Não será o cumprimento formal do ano letivo ou o aumento da carga horária que vão resolver o problema.

As estratégias eficazes de intervenção são bem mapeadas na literatura e são diferentes para os diferentes níveis: onde houver professores altamente qualificados (o que infelizmente é uma exceção), o tipo de estratégia é um. Para a maioria dos casos, as estratégias eficazes estão associadas à adoção de orientações específicas para alunos e professores, o que é conhecido pelo nome de ensino estruturado.

A mudança de prefeitos – um saudável hábito democrático – sem dúvida, neste momento, constitui um desafio adicional. De um lado, poderá suscitar decisões irresponsáveis e inviáveis pelos que estão saindo. De outro, pode ser uma oportunidade para rever décadas de práticas que não funcionam. Há caminhos e, certamente, alguns deles têm maior chance de sucesso. Não serão os mais óbvios, nem os mais fáceis. Nem os que gozam de maior consenso.

Texto originalmente publicado no blog “Educação em evidência“, da Veja.

Sucesso da rede municipal de educação de Teresina é debatido em live promovida pelo Instituto Alfa e Beto

Teresina

O Instituto Alfa e Beto realizou no dia 16 de julho um evento on-line para analisar o sucesso da política de alfabetização adotada em Teresina (PI). Transmitida pelo canal do Instituto no YouTube, a “live” teve a participação de Kleber Montezuma, ex-Secretário Municipal de Educação do município; da atual Secretária, Kátia Dantas; e do presidente do Instituto Alfa e Beto, professor João Batista Oliveira. A mediação foi feita pela Secretária Executiva de Ensino da SME de Teresina, Irene Lustosa.

Kleber Montezuma, de acordo com a apresentação feita pela mediadora, foi Secretário Municipal de Educação em três gestões no início dos anos 2000, quando “a rede começou a se estruturar de forma bastante organizada para traçar novos objetivos”. Voltou para a Secretaria em junho de 2013 e ficou até junho de 2020, “fechando um ciclo de sete anos dedicados à educação pública da cidade de Teresina”.

Em sua apresentação, Montezuma lembrou da realidade encontrada na rede no início do século, citando evento realizado no ano 2000 no contexto do programa Escola Campeã, patrocinado pelo Instituto Ayrton Senna, e que teve como idealizador o professor João Batista Oliveira. “Tínhamos quase 46% dos nossos alunos nos anos iniciais com distorção idade-série. Hoje esse número está em torno de 5%, e o objetivo é zerar. Conseguimos isso com planejamento, com a definição de metas claras e com o monitoramento do cumprimento delas”, disse.

Para ele, ter um sistema robusto e eficaz de avaliação também foi – e é – fundamental. “Temos informações da rede como um todo, de cada escola, turma e aluno. Com essa avaliação, podemos saber o que deve ser feito, como e onde. É a partir dela que desenhamos e redesenhamos as nossas políticas educacionais, incluindo a formação continuada dos professores”.

A formação dos professores, segundo o ex-secretário, tem como base os resultados das avaliações feitas sistematicamente. “Monitoramos o cumprimento dos objetivos ancorados em um programa de ensino estruturado. É com esse currículo, com esse programa de ensino estruturado, que conseguimos avançar na educação pública de Teresina”.

O ex-Secretário também ressaltou a importância de se adotar políticas educacionais baseadas em evidências científicas. “Temos muito mais chances de acertar – ou, pelo menos, de errar menos – quando procuramos trabalhar com base no que os estudos e dados dizem, e não em achismos. Um dos nossos acertos aqui, em Teresina, foi apostar na ciência como referência para nossa política educacional”.

Outros fatores do sucesso de Teresina, na avaliação de Montezuma, estão relacionados aos materiais e métodos pedagógicos adotados, além da criação de sistemas de estímulo ao professor. “Precisamos ter materiais amigáveis para os professores e alunos, e isso deve estar associado a um método que ajude e incentive os professores em sala de aula. É preciso que haja incentivo para que os bons resultados aconteçam”, afirmou.

O ex-Secretário frisou, ainda, que uma boa gestão – com planejamento e programa de ensino estruturado – fez toda a diferença em Teresina, e agradeceu a parceria de vários anos com o Instituto Alfa e Beto. “Em grande parte, devemos o sucesso da nossa rede à parceria que estabelecemos com o Instituto Alfa e Beto, que sempre se dedicou e esteve muito perto de nós”, disse.

Alfabetização na idade certa

Em sua apresentação, a atual Secretária Municipal de Educação de Teresina, Kátia Dantas, falou das origens da política educacional. “A política de alfabetização nasceu com um questionamento: por que nosso aluno só é alfabetizado com 7 ou 8 anos? Por que não a partir dos 6 anos, como os alunos da rede privada? Com essa pergunta nasceu um compromisso em elaborar um planejamento para alfabetizar na idade certa”, disse.

Outra decisão importante “tomada lá atrás”, segundo a secretária, foi organizar e institucionalizar um sistema próprio de avaliação. “As resoluções dependem dos resultados dessas avaliações”.

Em seguida, ela mostrou os bons resultados colhidos hoje pela rede. “Em 2019, tivemos 86% dos nossos alunos de 1º ano no nível avançado. Praticamente todos os alunos com as habilidades adequadas para a faixa etária e o ano escolar. É algo que verdadeiramente comprovou que nossas estratégias estavam dando certo. É possível, sim, alfabetizar nossos alunos na idade certa”.

Nada mais confiável do que os próprios dados para ilustrar o sucesso. “Em 2014, no 1º ano, de cada 10 alunos, somente 3 atendiam as habilidades para o seu ano. Em 2019, de cada 10, 9 alunos atenderam. A mesma proporção foi encontrada no 2º ano. Os dados mostram que, mesmo em um cenário de adversidades econômicas, é possível avançar nos resultados em pouco tempo”.

Para ela, os bons resultados se devem, principalmente, a uma gestão focada na aprendizagem dos alunos na sala de aula. “A alfabetização foi priorizada. Entendemos e reconhecemos a importância do método fônico e do programa de ensino estruturado trazido pelo Instituto Alfa e Beto. Foi um trabalho conjunto, sob o comando do professor Kleber, que sonhou, planejou, cobrou e sempre incentivou”.

Dantas também valoriza o que chama de “engrenagem que funciona de maneira coordenada” nesse momento de suspensão das aulas presenciais. “A organização do trabalho foi essencial para os professores em sala de aula. Hoje, com a pandemia, essa organização, desenvolvida ao longo de anos, não foi perdida. As estratégias continuam sendo colocadas em prática, mesmo que de maneira remota”.

A Secretária Executiva de Ensino da SME de Teresina, Irene Lustosa, acrescentou que, quando se tem um projeto pautado em uma política educacional robusta e consistente, é possível melhorar os resultados. “A história de Teresina no quesito alfabetização é a maior evidência do quanto que é possível uma ação organizada mudar um cenário em poucos anos”, frisou.

Antes de passar à palavra ao professor João Batista Oliveira, ela comentou sobre a parceria de Teresina com o Instituto Alfa e Beto desde o início dos anos 2000, a partir de um projeto piloto de alfabetização. “A parceria foi se expandindo, e hoje temos ações em outros anos escolares. O Instituto é um parceiro que se apresenta para o jogo todos os dias, inclusive em momentos difíceis como, por exemplo, os que estamos vivendo com a pandemia de covid-19. Nossos professores puderam fazer cursos gratuitos de excelente qualidade disponibilizados pelo Instituto desde o início da quarentena”.

Um exemplo que o país deve conhecer

Além de apresentar, comparar e analisar os resultados de Teresina na Prova Brasil, o presidente do Instituto Alfa e Beto procurou explicar as razões para o sucesso, lembrou a importância da alfabetização e falou também da questão do momento: como deve o retorno das aulas presenciais?

“A rede municipal de Teresina é grande, abarca uma porcentagem expressiva da população. Na pré-escola, 71% da matrícula é municipal; nas séries iniciais, 63%; e nas séries finais, 48%. É uma rede bastante grande, que passou de 100 para 130 mil alunos nos últimos anos. Vale lembrar, ainda, que 100% dos alunos da rede municipal encontram-se no nível 3 ou abaixo na escala de nível socioeconômico”, frisou.

O professor João Batista Oliveira mostrou o desempenho da rede na Prova Brasil. “Teresina começa em 2005 próxima à média do Brasil e um pouco acima do estado do Piauí. A partir de 2013, começa a ter um grande distanciamento da rede municipal em relação ao Estado e ao País”.

A cidade, hoje, se orgulha de ter a melhor rede de ensino municipal dentre as capitais, no 5º e 9º anos da Prova Brasil. “Em 2017, no 5º ano, em Matemática, Teresina somava 246 pontos, enquanto a média das outras capitais era de 216 – uma diferença de 30 pontos. Em Língua Portuguesa, a diferença era de 22 pontos. No 9º ano, a diferença é muito maior: 285 x 249 em Matemática, e 277 x 253 em Língua Portuguesa. 12 pontos na Prova Brasil é mais ou menos um ano escolar. Então, estamos falando de uma diferença muito e significativa, que está se acentuando nas últimas edições da avaliação nacional”.

Na avaliação do presidente do Instituto Alfa e Beto, esse sucesso não acontece por acaso. “É consequência de uma política educacional baseada em racionalidade, em evidências científicas. Municípios que desde 2000 têm usado métodos científicos para alfabetizar e realizar intervenções têm obtido avanços. É um contexto de ações racionais, gestão, capacitação, alinhamento de secretaria e professores, que pode explicar parte desse resultado importante”.

Não é trivial conseguir esses resultados. “Estamos falando de resultados impressionantes quando comparados com o restante do Brasil, inclusive pela velocidade das mudanças. Trata-se de um esforço notável dos gestores, professores e demais profissionais da área de educação da cidade que o Brasil precisa conhecer. Aproveito essa oportunidade para lhes dar os nossos parabéns!”, concluiu.

“Melhor prorrogar a regra atual por algum tempo para avaliar e propor, com base na evidência, uma reforma voltada para o aprendizado”, diz Marcos Lisboa, em artigo na Folha de S. Paulo sobre o Fundeb

Fundeb

A Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 19 de julho, um artigo do economista Marcos Lisboa, Presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005), sobre o Fundeb. A Câmara dos Deputados deve votar hoje, 20 de julho, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 15/15, que teve como relatora a deputada Professora Dorinha (DEM-TO).

Em seu artigo, Lisboa diz que “nossa política educacional ainda ignora a pesquisa minuciosa sobre os fatores associados à melhora do aprendizado. (…) Grupos organizados costumam defender apenas o aumento dos gastos com educação, sobretudo de salários, apesar do seu frustrante impacto sobre o aprendizado. (…) Delibera-se sobre a política educacional com base em opiniões, sem considerar as evidências”.

No texto, são citados dois relatórios produzidos a partir de seminários sobre o Fundeb realizados na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, além do artigo “O Fundeb e a questão da equidade”, de autoria de João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, e dos pesquisadores Guilherme Hirata e Lucas Melo, da consultoria IDados.

“A proposta do novo Fundeb amplia e constitucionaliza velhos problemas, analisados por Oliveira (2019, volumes 1 e 2) e Hirata, Melo e Oliveira (2000). (…) Melhor prorrogar a regra atual por algum tempo para avaliar e propor, com base na evidência, uma reforma voltada para o aprendizado. Temos exemplos de cidades pobres que zelam pela gestão do ensino e conseguem resultados surpreendentes, bem melhores do que regiões ricas”, escreve Lisboa, para quem “aprender com as boas práticas e cuidar dos alunos parece fora da agenda da educação”.

Ainda sobre o Fundeb, leia também:

Artigo publicado pelo professor João Batista Oliveira no blog “Educação em Evidência, na Veja: FUNDEB na linha do pênalti

. Relatórios dos seminários “Financiamento da educação básica no Brasil”, realizados na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, por iniciativa do Deputado Gastão Vieira (PROS-MA):

CICLO DE SEMINÁRIOS FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL VOLUME I CICLO DE SEMINÁRIOS FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL VOLUME II

. Vídeo em que o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira, comenta os seminários “Financiamento da educação básica no Brasil”, realizados na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, por iniciativa do Deputado Gastão Vieira (PROS-MA): Seminário sobre o Fundeb (Vídeo)

. Artigos do professor João Batista Oliveira publicados em alguns jornais do país:

O Estado de S. Paulo: João Batista Oliveira no jornal O Estado de S. Paulo: “Fundeb, entre o princípio do prazer e o princípio da realidade”

Folha de S. Paulo: Em artigo publicado na Folha de S. Paulo no último domingo, João Batista Oliveira comenta sobre o Fundeb e os desafios do financiamento da educação

O Globo: https://www.alfaebeto.org.br/2019/07/08/jornal-o-globo-financiamento-educacao/

Valor Econômico: Novos horizontes para a educação: João Batista Oliveira em artigo no Valor Econômico

Gazeta do Povo: Em artigo no jornal Gazeta do Povo, João Batista Oliveira apresenta propostas para o futuro do FUNDEB

. Relatório “Para desatar os nós da educação – uma nova agenda”, que também aborda a questão do financiamento da educação básica:

Relatório “Para desatar os nós da educação – uma nova agenda” será apresentado nesta terça, 10/09, em evento no Insper, em São Paulo